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A ARTE DA ESCUTATÓRIA

Escutatória é um neologismo criado pelo saudoso mestre Rubem Alves. Sempre me lembro de seu texto, quando vejo anúncios de cursos de oratória. Cursos bons e necessários, certamente, mas fico pensando se os mesmos não deveriam incluir em sua pauta, como iluminado contraponto, a proposta de Rubem Alves sobre a arte de bem ouvir.

Aliás, a capacidade de prestar atenção ao que o outro diz não é apenas uma arte: é uma postura essencial ao diálogo, se queremos de fato interagir, entrar em sintonia com nossos interlocutores. A propósito, aproveitando a quarentena, estou participando uma reunião online com um grupo que discute o livro “COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA”, de Marshall Bertram Rosenberg. A comunicação genuinamente empática pressupõe ouvir o outro, perceber o desejo que está por trás de sua fala. Segundo Marshall, quando cada um dos interlocutores “entra em empatia com o outro, é possível chegar a uma solução que atenda às necessidades de ambos. No mínimo, os dois lados podem concordar de boa vontade em discordar”.

O livro de Marshall poderia pautar uma das sessões de um possível Curso de Escutatória. Mas, voltando a Rubem Alves, outra contribuição importante a esse curso seria dada pela poesia. Rubem Alves lembra Fernando Pessoa, para quem “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.” Só no silêncio atencioso podemos ouvir o que está oculto na fala do outro, como também nos ensina a psicanálise: escutar o outro como quem ouve um poema, para perceber “algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras”.

Entre as contribuições da arte para o Curso de Escutatória, a música teria certamente um lugar especial. E, entre todos os compositores, eu convidaria John Cage e sua obra 4´33’’. Nesta, os músicos se postam no palco com seus instrumentos, mas não tocam: durante quatro minutos e trinta e três segundos, ouve-se o silêncio e os ruídos acaso produzidos no ambiente pela própria plateia. É John Cage quem comenta essa experiência: “Nenhum som teme o silêncio que o extingue”.

A pauta do Curso de Escutatória poderia ser extensa, com várias e ricas contribuições das artes, da ciência, da filosofia. Mas sobre a arte do saber falar e do saber ouvir, sobre o valor do silêncio em contraponto ao valor do falar, recorro à sabedoria de um místico, para encerrar essa breve reflexão:

“Antes de falar, pergunte-se: é gentil, é necessário, é verdadeiro, é melhor que o silêncio?” (Sathya Sai Baba)

 

Por: Afonso Guerra-Baião, professor e escritor. Publicou as narrativas O INIMIGO DO POVO e A NOITE DO MEU BEM pela Amazon. Tem textos publicados em revistas literárias como o Suplemento Literário de Minas Gerais. Colabora em jornais e em sites como Curvelo online. Publica também em sua página no Face e em seu blog no You Tube.
Acaba de publicar SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, um livro que explora duas vertentes da poética clássica: a lírica, que provoca a emoção e a reflexão, e a satírica, que libera o riso e a catarse.
Afonso é torcedor do Galo.

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