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A ARTE DE CERZIR AS MEIAS

            O sueco Henning Mankell, falecido em 2015, foi um dos melhores e mais lidos escritores de ficção policial do mundo. Vários de seus livros, que enredam de forma inteligente a trama de suspense com as questões político-sociais, foram publicados no Brasil, como você pode verificar, por exemplo, em “A leoa branca” e em “O homem de Beijing”. Mas o que tem tudo isso a ver com a arte de remendar as meias? É que uma passagem de outra narrativa de Mankell me deu o motivo dessa crônica. Nessa narrativa, o detetive Kurt Wallander, em meio à investigação de dois brutais assassinatos, para por uma noite na cidade de Gavle, onde, no saguão de um hotel, conversa com sua filha Linda. Era a década de noventa, época de uma Suécia marcada pela crescente violência, pelo avanço do crime organizado e pelo surgimento de milícias armadas. É quando Linda, que desejava tornar-se também uma policial, pergunta ao pai o porquê de tanta violência, por que a vida na Suécia estava se tornando tão difícil? É porque nós deixamos de cerzir as nossas meias, responde Wallander. E ele explica à filha perplexa que a extinção do hábito de consertar as próprias roupas dava lugar ao consumismo, que faz as pessoas trocarem facilmente as roupas usadas por novas. Acontece que o hábito de descartar não se resume às roupas e aos objetos, disse o detetive. O descarte se tornava um código de comportamento da nova sociedade, que tende a rejeitar tudo o que é diferente e todos os que não são iguais a nós. O descarte dos humanos indesejáveis se faz com violência e isso provoca reações em cadeia.

            Para evitar o spoiler, vou parando por aqui. Você encontra a versão em português dessa narrativa no livro “A quinta mulher”, editado no Brasil, como os dois outros citados, pela Companhia das Letras. Meu objetivo foi apenas fazer um recorte de um trecho que pode nos provocar a seguinte reflexão: hoje, já finalizando a segunda década do século XXI, não seria bom se reaprendêssemos a consertar nossas roupas?

 

Por: Afonso Guerra-Baião, professor e escritor. Publicou as narrativas O INIMIGO DO POVO e A NOITE DO MEU BEM pela Amazon. Tem textos publicados em revistas literárias como o Suplemento Literário de Minas Gerais. Colabora em jornais e em sites como Curvelo online. Publica também em sua página no Face e em seu blog no You Tube.
Acaba de publicar SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, um livro que explora duas vertentes da poética clássica: a lírica, que provoca a emoção e a reflexão, e a satírica, que libera o riso e a catarse.
Afonso é torcedor do Galo.

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