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A Dança de Salão em Curvelo: Cultura e Resistência

Pelos idos dos anos 1700, baianos e paulistas, dentre outros desbravadores, navegavam os rios São Francisco e Guaicuí em busca de ouro e outras pedras preciosas – estes desciam, enquanto aqueles subiam os rios. Ambos encontravam pouso às margens do ribeirão Santo Antônio. Alguns decidiram ficar nessas paragens e, em torno de uma humilde capela, fundaram um núcleo populacional. No início do século XVIII, aportou nessas terras um baiano nascido em Rio Real: o padre Antônio Corvelo de Ávila, cujo nome, com pequena variação, passaria a designar a localidade após ele ali se estabelecer, reconstruir a pequena capela e dedicá-la a Santo Antônio.

Integrando a micro-região do Alto São Francisco, no centro do cerrado mineiro, Curvelo recebeu as alcunhas de “Princesa Gentil do Sertão” pelo padre e poeta Celso de Carvalho, e de “Coração de Minas” pelo consagrado escritor Humberto de Campos. Hoje a cidade abriga cerca de 80.000 habitantes.

O passado de Curvelo registra um amor pelo Carnaval e outras festas populares. Delém, em seu livro “Pedacinhos Coloridos de Saudade”, cita, dentre outros, o desportista e coreógrafo Luiz Crispim como entusiasta do Carnaval na cidade. “Luiz gostava de dizer que a dança do samba para ele era um exercício do prazer, em busca de orientação técnica de coreografar. […] A coreografia é de inestimável valor para o universo da dança. Somente através da partitura pode-se montar ou remontar um balé com perfeição e absoluta originalidade.”

Como Luiz Crispim, a cidade teve vários outros incentivadores da dança como, por exemplo, Oldak Garcia, que dava aulas de dança de salão no bairro Maria Amália. Naqueles tempos eram bastante populares as músicas lentas e o rock (à época chamado de belisquete), além de outros estilos musicais. E Oldak Garcia ensinava aos seus conterrâneos os passos do momento. Outra
referência era Toninho Bombeiro, que também ministrava aulas de dança. Mas uma das pioneiras da dança na cidade foi a saudosa Elisa Lopes, professora de balé. Atualmente há, na cidade, uma academia de referência em dança nas modalidades jazz, balé e contemporâneo: a Academia Transforma, da fisioterapeuta e professora de danças Maria Auxiliadora, a Dôra; a Transforma promove há mais de dez anos festivais das referidas modalidades na cidade, tendo ganhado diversos prêmios dos festivais de outras localidades dos quais participou.

Em entrevista, o funcionário público Paulo Clésio (Paulinho) relatou que dava aulas de dança gratuitas, puramente por gostar, aos que se interessavam. Ele começou a dançar em 2001, aprendendo com Gilberto, dono de uma retífica, e Cléber, um cabelereiro, os quais ministravam gratuitamente suas aulas de forró na sobreloja do prédio da Associação. O primeiro contato de Paulinho com a dança foi contagiante. “Entrar no ritmo é como ouvir os batimentos do próprio coração, é sentir a vida sem nela deixar de reescrever simbolicamente a morte” (Delém, op. cit.).

Em 2002, mudaram o local de aulas para o Clube Recreativo Curvelano, onde ficou apenas o Paulo dando sequência às aulas de dança. Fazia forrós, contratava bandas como o Forró Malino e Trio Virgulino. As aulas aconteciam duas vezes por semana; nesse mesmo período, passou a dar aulas na Associação do Bairro Ponte Nova para a comunidade local durante quase um ano. Também no Curvelo Clube aos domingos havia forró. Os que frequentavam suas aulas tinham carteirinhas para entrar nos locais onde eram promovidas as festas. Houve uma parceria com um grupo da cidade de Formiga para fazer a “graduação” das sapatilhas (preta, branca, vermelha). Paulinho persistiu nesse trabalho durante 10 anos, depois deixou o forró porque tinha outros compromissos.

Em 2015 Paulinho retomou, na Praça de Esportes, as aulas. Pagava um aluguel do seu próprio bolso. A experiência durou apenas seis meses, e ele não teve como continuar.

Um ano depois foi para o Sindicato dos Tecelões, onde novamente dava aulas gratuitas; com a mudança de direção, foi-lhe comunicado que cobrariam o aluguel pelo espaço utilizado, mais uma vez, ele foi obrigado a declinar da iniciativa.

Segundo Paulinho, a solução para o crescimento das danças de salão em Curvelo seria a obtenção de um local apropriado para promover esse tipo de arte, pois, de acordo com seu ponto de vista, a maior dificuldade para aquele que trilha esse caminho é a falta de incentivo do poder público: “O importante é a gente dançar. Dançar é viver sempre feliz!”

Em contato com a professora Dicilda Trindade, formada em Letras Português/Inglês e suas literaturas pela Faculdade de Ciências Humanas de Curvelo, com especialização em Arte e Educação, ela relatou que conheceu a dança de salão no ano de 1997, por intermédio do professor Jaime Arôxa, ao fazer um curso de bolero com o mesmo na cidade de Poços de Caldas. A partir de então, apaixonou-se pelas danças de salão e decidiu criar um grupo de danças em Curvelo, vizinha de sua cidade natal, Inimutaba. Seu projeto abrangeria as duas cidades, uma vez que Curvelo e Inimutaba são bastante próximas.

Seu objetivo inicial era unir o teatro e a dança. Após tomar essa iniciativa, foi convidada a trabalhar no Instituto Santo Antônio, onde ministrava danças de salão, balé e jazz. Formada em Magistério, Dicilda buscava utilizar a arte como instrumento de seu fazer pedagógico. Preocupada em se aperfeiçoar sempre mais, fez cursos de aprofundamento em São Paulo com o dançarino Carlinhos de Jesus. Em 2005 teve de se mudar para São Paulo e, por isso, foi obrigada a interromper as aulas em Curvelo.

De volta em 2012, Dicilda percebeu que um de seus desafios seria vencer o preconceito bastante difundido contra a participação masculina na dança. A cidade de Curvelo sempre foi uma cidade patriarcal conservadora, e isto foi um agravante nesse período histórico em que se conhecia muito pouco sobre as danças de salão.

A bandeira contra o preconceito também foi levantada por Delém, em seu livro supracitado: “Todos que gostam do samba sabem que o mesmo faz ultrapassar barreiras de preconceitos, inclusive o de cor; por si só revigora e repõe energia. O samba tem seu berço na África e, hoje, impera de norte a sul do Brasil e, fundamentalmente, incorpora-se no bom sangue do mulato, corre em nossas veias, fazendo arte de nossa essência, nasce com a gente, consciente dessa verdade”.

No ano de 2013, Dicilda apresentou à Prefeitura de Inimutaba o projeto cultural TRAMA, que é uma oficina de teatro e dança para jovens. Tal projeto, ainda em vigor, tem o propósito de difundir as danças e ajudar as futuras gerações em seu aspecto social, afetivo, educacional e cultural.

Em sua opinião, as danças de salão não crescem em Curvelo devido à falta de valorização cultural, falta de investimento do poder público, falta de espaços para praticar as danças e de acreditar que vale a pena dançar. Para que haja crescimento, ela acha que é indispensável que as pessoas acreditem no poder de transformação das danças sobre realidades individuais e comunitárias: “É preciso acreditar que é possível superar todas as dificuldades; é preciso não desistir e buscar formas de fazer acontecer; é preciso acreditar que a dança tem, sim, poder de transformar uma realidade e um lugar”.

Pode-se concluir, a partir dos relatos de Paulo Clésio e Dicilda, dos levantamentos feitos nesta pesquisa e das experiências vividas por esta autora, que as danças não crescem por falta de iniciativa do poder público, falta de mobilização e organização das pessoas envolvidas na área e cultura local patriarcal.

Para diminuir essas dificuldades seria necessário uma articulação dos envolvidos e apaixonados pela dança junto ao poder público, reivindicando ações e também fazendo a parte que lhes cabe, ou seja, fazendo a diferença no seu meio e dentro de suas possibilidades.

É preciso ressaltar que, após esta pesquisa, concluída em fevereiro do ano de 2018, houve o florescimento de vários movimentos de Dança na cidade, essa outra etapa será objeto de um próximo artigo.

Sobre a autora:
Marielen Brandão, pesquisadora, dançarina e professora de Danças de Salão. Integrante do Grupo Coletivo Artístico, de pesquisa e desenvolvimento artístico em Curvelo.
Siga no Instagram: @marielenbrandaodancer 

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