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CLÁSSICOS, FLAUTA, PENA DE PAVÃO

Na cidade da minha infância, havia uma rua chamada Cantinho do Céu. Essa foi a lembrança que me veio quando, entre Curvelo e Sete Lagoas, de repente uma placa me indicou: Paraíso dos Pavões. E como estamos sempre em busca do Éden perdido, eis que já estou lá, depois de um delicioso café da manhã, à beira da piscina, repondo vitamina D e mergulhando de cabeça num livro escolhido não por acaso, mas que o acaso tornou inesperadamente útil, no diálogo que logo aconteceu.

Sim, porque minha vizinha de espreguiçadeira puxou conversa, motivada pelo título do livro: “POR QUE LER OS CLÁSSICOS?”. Ela não repetiu a pergunta, mas perguntou:

– O que são os clássicos?

Respondi com um trecho de Italo Calvino:

– São obras que ajudam a entender quem somos e aonde chegamos.

– Então os livros de autoajuda são clássicos?

– Os clássicos são mais amplos.

– Mais complicados?

– Podem ser simples, mas sempre complexos, porque são inesgotáveis.

– Como assim? – ela insistiu.

Respondi, sempre com um trecho de Calvino:

– Quanto mais são lidos, mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

– Desenhe pra mim, ela riu; defina o clássico com uma imagem.

– Clássico é um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

– Então são livros antigos…

– Moderno ou antigo, clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

Nesse momento apareceu, no gramado adjacente, um casal dos pavões que dão nome à pousada. Então eu pude fazer uma pergunta:

– Você sabe a origem dos olhos na cauda do pavão?

Ela fez que não com a cabeça. Eu disse:

– O gigante Argos tinha cem olhos e nunca fechava todos, mesmo ao dormir. A deusa Hera o incumbiu de guardar uma prisioneira, a princesa Io, amante de Zeus. Para libertar a princesa, Zeus mandou que Mercúrio contasse a Argos uma história interminável e de modo tão monótono que os olhos todos de Argos acabassem se fechando e Mercúrio pudesse lhe cortar a cabeça. Para homenagear seu servo fiel, Hera criou uma ave sagrada, o pavão, e colocou em sua cauda os cem olhos de Argos. Aprendi isso num clássico: “As metamorfoses”, de Ovídio.

Minha vizinha de espreguiçadeira espreguiçou, dizendo:

– Os clássicos podem me fazer dormir…

– Ou te abrir os olhos…

Ela era um páreo duro:

– Com tanta informação assediando, quem terá tempo para ler um clássico?

– Devemos ter um ouvido aberto para os ruídos da atualidade, enquanto no outro ressoa, claro e articulado, o discurso dos clássicos – repeti Calvino, mais uma vez.

Já de pé, a vizinha teimou:

– Me diga, francamente: com crise de toda ordem, corrupção, violência, intolerância, ano eleitoral, processos kafkianos, por que ler os clássicos?

– Kafka ainda tem muito a dizer, pensei. Mas, antes que ela partisse, respondi com uma citação de Emil Cioran:

Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. “Para que lhe servirá?”, perguntaram-lhe. “Para aprender esta ária antes de morrer”.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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