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FLOR DO LÁCIO

A comemoração do Dia da Língua Portuguesa, no 5 de maio, me fez lembrar a frase de Bernardo Soares, heterônimo menos lembrado de Fernando Pessoa, no seu pouco lido “Livro do Desassossego”: Minha pátria é a língua portuguesa”. Mesmo quem não a leu em seu contexto original, certamente conhece a citação que Caetano Veloso fez da frase famosa na canção “Língua”. Mas o poeta baiano não se limita a repetir e a assinar em baixo dessa máxima. Ele renega o campo semântico de pátria (o mesmo de pai e de patrão) para criar, através de dois neologismos, um espaço ideal de ser: “eu não tenho pátria / tenho mátria / e quero frátria”; ele questiona os limites e as possibilidades da língua: “O que quer / o que pode esta língua?”.  Assim, a língua é a imagem de uma encruzilhada: a vertente do querer, do desejo, e a vertente da autoridade, do poder.

A língua como figura da autoridade e do poder é aquela que Roland Barthes em sua “Aula” chama de fascista: não por proibir o dizer, mas por impor as regras do como dizer; é aquela a que Graciliano Ramos se refere quando fala, nas “Memórias do Cárcere”, que “começamos reprimidos pela gramática e terminamos reprimidos pela polícia”; é aquela que faz Heidegger reivindicar a “libertação da linguagem dos grilhões da gramática”, na “Carta sobre o Humanismo”.

O sujeito poético da canção escolhe o sentido que conduz à língua materna, a mátria, a “flor do Lácio” que pode desabrochar na utopia da frátria, esse “sonho feliz de cidade”, onde “nós canto-falamos” entre “livros, discos, vídeos à mancheia”; onde, no dizer de Wittgenstein, “uma nuvem inteira de filosofia se condensa numa gotinha de gramática”.

Mas como driblar a primeira, em direção à segunda vertente da linguagem e da vida?  A resposta de Barthes é: “trapacear com a língua. Essa trapaça salutar, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem”. E Caetano Veloso dá a receita desse jogo: “criar confusões de prosódia / e uma profusão de paródias / que encurtem dores / e furtem cores como camaleões”.

Na encruzilhada entre a língua pátria, sinal do poder, e a língua mátria/frátria, fundadora de uma nova possibilidade de existência, nos vemos de volta ao “Livro do Desassossego”, que formula assim essa dualidade dialética: “Uns governam o mundo, outros são o mundo”.

Afonso Guerra-Baião, professor e escritor. Publicou as narrativas O INIMIGO DO POVO e A NOITE DO MEU BEM pela Amazon. Tem textos publicados em revistas literárias como o Suplemento Literário de Minas Gerais. Colabora em jornais e em sites como Curvelo online. Publica também em sua página no Face e em seu blog no You Tube.
Acaba de publicar SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, um livro que explora duas vertentes da poética clássica: a lírica, que provoca a emoção e a reflexão, e a satírica, que libera o riso e a catarse.
Afonso é torcedor do Galo.

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