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O CONDE E O ROQUEIRO

Em meus primeiros anos na escola, a professora me apresentou ao poema “Por que me ufano de meu país”, escrito pelo Conde Afonso Celso no século XIX. Não posso dizer que tive prazer em conhecê-lo. Primeiro, porque achei feia a palavra “ufano”. Depois, com o tempo, fui desgostando cada vez mais daquele e de todo ufanismo: a falta de senso crítico com que se cultua a pátria ou o que quer que seja.

Nos antípodas do poema de Afonso Celso está a canção cantada por seu bisneto, Dinho Ouro Preto: “Que país é esse?”.

– Que país é esse? – perguntei ao primeiro conhecido que encontrei na rua, pensando no cu de boi que hoje é a interpretação da Lei, bem como a relação entre os poderes em nosso país.

Mas o cara estava mais para conde do que para roqueiro. Como se fosse arrebatado por um súbito espírito de destilada verborragia, ele olhou para mim com os olhos arregalados de que tem uma visão do além, me brindou com um tapa nas costas que quase me derrubou, e berrou em êxtase:

– Abençoado! Você acaba de me inspirar uma peça oratória!

Dito isso, ele estalou os dedos e logo alguém chegou com um pedestal, outro lhe entregou um megafone, enquanto um terceiro me pôs nas mãos folhetos coloridos com a foto sorridente do orador, com seu número, seu nome, seu santinho de candidato de deputado. Outros puxa-sacos filmavam, distribuíam folders, aplaudiam, incentivavam os curiosos a chegar mais. Do alto do pedestal, o candidato despejava uma torrente verbal e uma cascata de perdigotos:

– Que país é esse, um anjo me perguntou. E a resposta, depois de voltar iluminado do Tabor, eu digo pra vocês, pois para isso fui enviado. Eu digo pra vocês, abençoados: esse é o país que faz meu peito se enfunar de orgulho! (Enfunar: essa palavra me persegue ou dei pra elaborar teorias conspiratórias?). – Agora, sim! – continua ele, enfunando-se e ufanando-se cada vez mais. Esse é o nosso Brasil viril, em que as mulheres podem se recolher com recato ao recôndito dos lares, pois elas não querem ser empoderadas, mas amadas. Decerto poderão enfeitar as recepções e até adornar algum puxadinho do pátrio poder. Sim, pois nesse país varonil os homens não fogem ao seu dever natural de chefes da Família e do Estado – não só os homens de verdade, mas também aqueles nem tanto, desde que se submetam aos poderes da cura gay, consolando-se com um exame semanal de toque retal, sempre pensando nos interesses mais altos da nação, na moral e nos bons costumes.

A essa altura eu já precisava de um guarda-chuva. Ele seguia, embalado:

– Em nome de Deus, da pátria e da família, inspirado por um anjo de luz que é meu guia, eu prometo liberar o mar de lama das mineradoras, para lavar o sangue ruim da corrupção que manchou nossa bandeira! Prometo liberar os agrotóxicos, para eliminar os corpos estranhos que infestam a sociedade! Prometo…

Antes que eu mesmo fosse atingido por mais alguma promessa redentora, fui saindo à francesa, esgueirando para fora do bando de apoiadores e de curiosos.

Ao dobrar a esquina, dei de cara com outro conhecido, um guitarrista que toca na noite.

– Que país é esse? – perguntei compulsivamente.

– Cara, como você adivinhou?

– Adivinhei o quê?

– Vou tocar no show de Dinho Ouro Preto, substituindo o…

– O próprio Dinho?

– Ele não!

Decidi na hora: eu iria ao show. Talvez a arte fosse o capital inicial que me faltava para reerguer minha economia moral, para acreditar (sem me ufanar) que um país melhor é possível.

 

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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