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O DEUS DAS PEQUENAS COISAS

Ele não deixa pegadas na areia, ondulações na água, nem imagem nos espelhos. Ele, o deus das pequenas coisas, intitula e preside a narrativa com que Arundhati Roy conta uma história passada em Ayemenem, pequena cidade no sudoeste da Ìndia, no ano de 1969. É ele, o deus dos arrepios e sorrisos súbitos, que desvela no olhar de Rahel e Estha, filhos gêmeos da divorciada Ammu, a miragem de um mundo recriado com as formas e as cores da inocência – um mundo luminoso à sombra da ruína de sua cidade e de sua família.

Mas ele é também o deus da perda. É ele que vai abrindo, aos poucos, os olhos dos gêmeos para os estatutos de uma família, de uma sociedade “arquitetada para excluir Ammu e seus filhos, para informá-los de seu lugar no esquema das coisas” – o lugar reservado a uma mulher sem marido e aos filhos sem pai. É o deus da perda que, através da gramática das pequenas coisas, instrui os gêmeos na leitura das leis do amor: leis muito antigas que determinam quem pode ser amado. E como. E quanto. Através do código das pequenas coisas, o deus da perda ilumina os gêmeos na compreensão de que a atualização que fazemos de velhas leis pode determinar o fim de tudo num só dia. Como tudo acabou quando Ammu transgrediu as leis do amor: no dia em que ela tocou um homem de uma casta inferior, um serviçal, um “intocável”. Não só o tocou como se deixou tocar por ele, como se deixou possuir por alguém que não podia ser amado.  O percurso narrativo de O DEUS DAS PEQUENAS COISAS conduz seus personagens rumo ao aprendizado do custo da vida, cujo peso dramático é sustentado pela leveza do olhar infantil.

A leitura do livro de Arundhati Roy me reconduz ao Brasil, ao nosso aqui e agora, com tantas diferenças e tantos pontos em comum com a India. Aqui não temos castas, mas classes sociais. Não temos os “intocáveis”, mas temos os “invisíveis”. Estes formam a ralé brasileira, como diz Jessé de Souza: classe de indivíduos que nasceram sem o bilhete premiado de pertencerem às classes alta e média. Os nossos invisíveis são úteis e aceitos enquanto permanecem em seus papéis temáticos de serviçais, mãos-de-obra, subalternos que reconhecem seu lugar de ser e de estar. Quando algum desses, por exceção, se faz visível, extrapolando seu papel temático, é preciso que a narrativa seja corrigida por aqueles a quem cabe, por direito, reconduzir o desviado ao seu lugar no esquema das coisas: ele precisa aprender que seu lugar é o posto de trabalho, a área de serviço, a favela, os corredores periféricos, a prisão; ele precisa entender que também aqui há uma lei não escrita que determina quem pode ser amado. E como. E quanto.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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