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O HOMEM QUE ESCUTAVA

            No prólogo ficcional de “A maldição de Edgar”, de Marc Dugain, há uma frase emblemática: “A pretensa objetividade de um memorialista é tão nociva à verdade quanto a intenção de falsificar fatos”. Esse prólogo apresenta as “Memórias atribuídas a Clyde Tolson”, braço direito e amante de Edgar Hoover, o onipotente chefe do FBI entre 1924 e 1972, permanecendo no cargo ao longo dos mandatos de oito presidentes.

            O que a narração destas memórias revela é justamente o mecanismo que permitiu essa incrível sobrevivência no poder, com base em dois pilares: a escuta telefônica e a aliança com a Máfia.

            Com o argumento de que a ameaça do comunismo internacional pairava sobre a nação americana, o FBI pôs em funcionamento um esquema de vigilância da vida privada que faria inveja ao Grande Irmão de George Orwell. “Esse sujeito junta documentos sobre todo mundo, até sobre o presidente. Ele deve ter certas vantagens, já que está lá desde 1924 e nenhum presidente conseguiu se livrar dele”, teria dito Joe Kennedy a seu filho John, então candidato a uma vaga no Congresso.

            Mas Edgar Hoover não se limitou a espionar as atividades dos presidentes e dos outros políticos. Através do onipresente mecanismo de controle do FBI, ele também vigiava a vida particular de cidadãos americanos, principalmente os artistas e os intelectuais. Fazia, porém, vista grossa para as atividades do crime organizado. “A Máfia está aí desde que esta terra foi povoada por italianos, judeus e irlandeses – e eu pergunto: suas organizações alguma vez ameaçaram os fundamentos de nossa sociedade? Não. Prefiro que dediquemos nossos meios a lutar contra a esquerda americana”, são palavras que o narrador Clyde Tolson coloca na boca de Edgar Hoover, em seu memorial.

            Exemplo lapidar da luta do FBI de Edgar Hoover pela preservação do modo de vida e da moral americana, foi a condenação à morte do cientista Julius Rosenberg, acusado de espionagem para os soviéticos, e de sua mulher Ethel, contra a qual não havia sequer provas para que fosse presa. Mas foi outra morte que veio coroar seu trabalho: o assassinato de John Kennedy. Não que tivesse nesse caso a mesma participação ativa que na morte dos Rosenberg, mas sim aquela da omissão e da conivência: “Devo confessar que não me levantei contra a idéia de que o presidente devia ser assassinado”. Afinal, para Hoover e para a direita americana, os fins sempre justificaram os meios.

            Quem gosta de ficção histórica deve ler “A maldição de Edgar”: uma visão da história americana do século passado, com seus principais atores em cena e, principalmente, nos bastidores. Alguns paralelos com a atualidade política brasileira serão inevitáveis.

            O autor, Marc Dugain, francês nascido no Senegal, tem ainda publicado no Brasil o romance “Uma execução comum” (também pela Editora Record), sobre a tragédia do submarino nuclear russo em 2000, em que morreram seus 118 tripulantes, uma extraordinária metáfora do naufrágio de toda a União Soviética.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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