Home / COLUNAS / Afonso Guerra-Baião / O JOVEM CONSERVADOR
SIGA NO INSTAGRAM

O JOVEM CONSERVADOR

John Minton

Sabe aquele aluno rebelde, contestador, para quem o professor não passava de um liberal, em termos pedagógicos, e de um reformista, em termos políticos, um retrógrado incapaz de compreender sua ânsia revolucionária? Pois é. Você o reencontra tempos depois, em plena efervescência eleitoral, mais adulto que a própria idade cronológica, agora candidato a deputado. Ele percebe a interrogação no olhar que você dirige à sigla partidária que ele ostenta nos botons e nos adesivos. E esclarece: “Nem esquerda nem direita, Mestre. Agora eu sou conservador”. Você diz, como se falasse consigo mesmo: “Agora…”. E ele, cujo breve histórico ostenta oscilações entre os extremos no espectro político: “Agora é pra valer!”. Decerto é mais um movimento que faz em busca de um utópico ponto de equilíbrio. Com seu cacoete de professor, você não resiste a fazer uma provocação: “Otto Maria Carpeaux disse que o conservadorismo é aquilo que não tem nenhum movimento”. Com uma expressão de desafio, ele responde: “Pois eu estou no movimento conservador”. E acrescenta: “Esse Otto era algum comunista ateu, não era?”. “Era um intelectual, expoente da Ação Católica”, você diz e pergunta se ele ainda é católico. “Católico sempre!” é a resposta e, através dela, você visualiza o adesivo no vidro traseiro de uma S10 cabine dupla: ORGULHO DE SER CATÓLICO. Você provoca mais: “Como bom católico, você é obediente ao Papa”. E ele: “Enquanto o Papa for obediente aos dogmas inspirados pelo Espírito Santo”. Você cutuca: “Enquanto ele for conservador”. E ele: “Enquanto for um guardião dos princípios do cristianismo”. Você sorri: “Ah, sim, quando ele retoma o exemplo dos primeiros cristãos que partilhavam tudo, sem apego à propriedade privada”. E ele: “É preciso desconfiar dos desvios interpretativos da Teologia da Libertação”. Você aproveita a deixa: “O Papa não é conservador quando defende o direito dos índios de manter suas tradições e lugares sagrados”? A resposta é rápida e rasteira: “Nisso ele está errado”. Você banca o escandalizado: “Mas o Papa não é infalível”? Ele: “Apenas em questões de fé”. E você: “Ah, sei, a César o que é de César… Então você é a favor do estado laico”. Ele não hesita: “Só Jesus é o Senhor. Deus no comando de tudo”. Mais uma bola pra você chutar: “Teocracia cristã”. E ele: “Eu sou um fundamentalista, no bom sentido”. Outra bola quicando pra você: “Fundamentalista é o homem de um livro só, criticado pelo teólogo Tomás de Aquino”. Ele parece estar sempre pronto para a briga, um bom candidato a deputado: “Esse aí deve ter outro livro: o Manifesto Comunista. Meu livro é só um: a Bíblia Sagrada. Meu Senhor é só Jesus, que é eterno, que é sempre o mesmo, ontem, hoje e sempre”. Você deixa passar esse eterno temporalizado pelos advérbios. Mas não pode deixar passar o Tomás de Aquino marxista e lembra que ele viveu na Idade Média. O ex-aluno não perde o prumo: “Herege é o que não faltava nessa época, não é à toa que houve a Santa Inquisição”. Você informa, então, que Santo Tomás é Doutor da Igreja. O jovem conservador finge que não sentiu o golpe, mas antes que ele reaja, você emenda de primeira: “Você se candidata para defender novas inquisições”? Ele se recompõe: “Olha, mestre, nesse nosso tempo em que tudo é tão vazio, tão efêmero” … Você: “… em que tudo o que é sólido desmancha no ar” … Ele: “Tomás de Aquino”? Você: “Karl Marx”. Ele: “Ah… Mas como ia dizendo, nesse tempo de tanto relativismo, precisamos de algo sólido, firme, conservador; precisamos ancorar nosso barco na eterna imobilidade da rocha que é Deus”. Você: “Deus é um ser em movimento”. Ele: “Mas Marx não era ateu”? Você: “Quem disse isso foi Tomás de Aquino”. “Ah… disse ele”.

E a conversa ficou por aí. O candidato conservador precisava seguir em campanha para transformar o mundo no mesmo e você precisava escalar seu time no Cartola. Poucos anos depois você se lembra desse encontro, com saudade de um tempo em que ainda era possível conversar.

 

Por: Afonso Guerra-Baião, professor e escritor. Publicou as narrativas O INIMIGO DO POVO e A NOITE DO MEU BEM pela Amazon. Tem textos publicados em revistas literárias como o Suplemento Literário de Minas Gerais. Colabora em jornais e em sites como Curvelo online. Publica também em sua página no Face e em seu blog no You Tube.
Acaba de publicar SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, um livro que explora duas vertentes da poética clássica: a lírica, que provoca a emoção e a reflexão, e a satírica, que libera o riso e a catarse.
Afonso é torcedor do Galo.

Veja Também

UM POEMA DE BLAKE

Temo o homem que só conhece um livro, disse Tomás de Aquino, o grande teólogo ...