Home / COLUNAS / Afonso Guerra-Baião / SIMPATIA POR VAMPIROS

SIMPATIA POR VAMPIROS

Acabo de viajar pela África do século XIX, através de uma narrativa intitulada “PANDORA EN EL CONGO”. Nela, o catalão Albert Sánchez Piñol aborda o absurdo das relações entre colonizadores e colonizados, pelo viés da farsa e da fantasia. Tal absurdo faz com que o personagem-narrador comece a perder a Fé, a virtude teologal com que se justificava a invasão dos mundos novos, o roubo, o tráfico de escravos, o genocídio: a Caridade já não fazia mais nenhum sentido. Como lhe restava ainda um pouquinho de Esperança, lá pelas tantas ele passa a invocar os fantasmas, as assombrações, as quimeras que povoavam seu imaginário na infância, cuja ameaça era fichinha perto das espadas, das armas de fogo e dos grilhões dos monstros humanos: a aparição de algum espectro do além lhe devolveria a certeza de que existe outro mundo, de que a imortalidade não era uma conversa fiada, de que tudo não acabava em nonsense.

Pois é. Fecho o volume do “PANDORA”, me alongo com toda a concentração, aspiro e expiro, lenta e profundamente, à espera das bombas que informam nosso admirável mundo novo.

Ali, o plutocrata Donald Trump dá uma banana para  o planeta e para o Acordo de Paris, em que os países da ONU se comprometem em reduzir a emissão dos gases causadores do efeito estufa.

Lá, o histriônico presidente da Coreia do Norte prepara-se para botar numa futura mesa de negociação um avantajado pinto nuclear.

Aqui, o punguista Michel Temer tenta salvar seu butim, sacrificando no altar do deus Mercado os direitos trabalhistas e previdenciários que o povo conquistou.

Respiração. Alongamento. Como o personagem de PANDORA, preciso soprar a brasa da Esperança, não deixar cair a peteca da Fé. Para tanto, quem sabe eu deva buscar inspiração em filmes como INVOCAÇÃO DO MAL? Talvez devesse reler Poe, Bram Stoker, Lovecraft. Ou serão os vampiros da série crepuscular de Stephenie Meyer que me trarão a consoladora promessa de um mundo assombrado por uma fantasmagoria mais light?

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

Veja Também

EVA E AS UVAS

Vendo o rubro e rútilo cacho de uvas lá no alto, ela chegou à conclusão ...

Publicidade