CLÁSSICOS, FLAUTA, PENA DE PAVÃO

CLÁSSICOS, FLAUTA, PENA DE PAVÃO

29 de janeiro de 2018 Off Por Daniel Araújo

Na cidade da minha infância, havia uma rua chamada Cantinho do Céu. Essa foi a lembrança que me veio quando, entre Curvelo e Sete Lagoas, de repente uma placa me indicou: Paraíso dos Pavões. E como estamos sempre em busca do Éden perdido, eis que já estou lá, depois de um delicioso café da manhã, à beira da piscina, repondo vitamina D e mergulhando de cabeça num livro escolhido não por acaso, mas que o acaso tornou inesperadamente útil, no diálogo que logo aconteceu.

Sim, porque minha vizinha de espreguiçadeira puxou conversa, motivada pelo título do livro: “POR QUE LER OS CLÁSSICOS?”. Ela não repetiu a pergunta, mas perguntou:

– O que são os clássicos?

Respondi com um trecho de Italo Calvino:

– São obras que ajudam a entender quem somos e aonde chegamos.

– Então os livros de autoajuda são clássicos?

– Os clássicos são mais amplos.

– Mais complicados?

– Podem ser simples, mas sempre complexos, porque são inesgotáveis.

– Como assim? – ela insistiu.

Respondi, sempre com um trecho de Calvino:

– Quanto mais são lidos, mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

– Desenhe pra mim, ela riu; defina o clássico com uma imagem.

– Clássico é um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

– Então são livros antigos…

– Moderno ou antigo, clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

Nesse momento apareceu, no gramado adjacente, um casal dos pavões que dão nome à pousada. Então eu pude fazer uma pergunta:

– Você sabe a origem dos olhos na cauda do pavão?

Ela fez que não com a cabeça. Eu disse:

– O gigante Argos tinha cem olhos e nunca fechava todos, mesmo ao dormir. A deusa Hera o incumbiu de guardar uma prisioneira, a princesa Io, amante de Zeus. Para libertar a princesa, Zeus mandou que Mercúrio contasse a Argos uma história interminável e de modo tão monótono que os olhos todos de Argos acabassem se fechando e Mercúrio pudesse lhe cortar a cabeça. Para homenagear seu servo fiel, Hera criou uma ave sagrada, o pavão, e colocou em sua cauda os cem olhos de Argos. Aprendi isso num clássico: “As metamorfoses”, de Ovídio.

Minha vizinha de espreguiçadeira espreguiçou, dizendo:

– Os clássicos podem me fazer dormir…

– Ou te abrir os olhos…

Ela era um páreo duro:

– Com tanta informação assediando, quem terá tempo para ler um clássico?

– Devemos ter um ouvido aberto para os ruídos da atualidade, enquanto no outro ressoa, claro e articulado, o discurso dos clássicos – repeti Calvino, mais uma vez.

Já de pé, a vizinha teimou:

– Me diga, francamente: com crise de toda ordem, corrupção, violência, intolerância, ano eleitoral, processos kafkianos, por que ler os clássicos?

– Kafka ainda tem muito a dizer, pensei. Mas, antes que ela partisse, respondi com uma citação de Emil Cioran:

Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. “Para que lhe servirá?”, perguntaram-lhe. “Para aprender esta ária antes de morrer”.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.