
A garota tinha lido o conto de Artur Azevedo, em que um pai finge não ouvir o filho que lhe pergunta o que é um plebiscito – finge, despista, tergiversa, até conseguir consultar um dicionário e voltar triunfante com a resposta, posando de verdadeiro sabe-tudo. A nossa menina, então, resolve testar o próprio pai, também muito senhor das velhas opiniões formadas sobre tudo.
– Pai, o que é um fascista?
O pai tinha a resposta na ponta da língua e nem precisou consultar o Google no celular:
– Fascista, minha filha, é um tipo de comunista.
– Mas pai, comunista não é de esquerda?
– É, e daí?
– Daí que os fascistas são grupos de direita. De extrema direita.
– De onde você tirou isso?
– A professora de história falou e eu conferi em livros da biblioteca.
– Essa professora deve ser uma esquerdopata que nem sabe distinguir a mão direita da esquerda. Preciso conferir o que você anda lendo!
– Por que o senhor não confere agora? Olhe aí numa enciclopédia virtual.
– Na internet tá tudo dominado, minha filha, você não sabe disso?
– Dominado por quem, pai?
– Ora, pelos nazistas!
– Então eles estão no poder? Ainda existe partido nazista?
– Existe partido comunista, é a mesma coisa!
– Mas a professora e os livros de história dizem que os comunistas invadiram Berlim e derrotaram os nazistas.
– Foram os americanos!
– Os russos e os americanos.
– Mentira dessa professora esquerdista e seus livros subversivos.
A garota suspira.
-Pai, o que o senhor acha de Carlos Drummond de Andrade?
– Acho que ele foi um poeta.
Despistadamente, ele confere no celular:
– Acho, não: eu sei que ele foi um poeta.
– O senhor já leu o poema COM O RUSSO EM BERLIM, que ele escreveu para saudar a derrota do nazi-fascismo, no fim da guerra mundial?
– Olha, minha filha, se eu pudesse eu mandava matar os artistas vagabundos, que vivem enchendo de ideias marxistas as cabeças de mocinhas inocentes como você!
– Calma, pai! O senhor tá precisando ler poesia…
– Eu tenho lá tempo pra ler poesia, minha filha? Eu tenho mais o que fazer, preciso ganhar dinheiro pra pagar sua escola e sustentar os luxos daquela… de sua mãe.
– Daquela o quê?
– Escuta, minha filha, você sabe muito bem que sua mãe anda procedendo como uma vadia! Desrespeitando os valores da família!
– Minha mãe é uma mulher livre, divorciada, não tem que lhe dar satisfação.
– Livre às custas do meu dinheiro, você quer dizer…
– Ela trabalha e eu moro com ela, tá esquecendo? Quem paga…
– Esqueci uma coisa: vocês mulheres são todas iguais. E você está me saindo uma perfeita comunista!
A menina se levanta, encerrando o encontro mensal na lanchonete:
– Obrigada, pai!
– Pelo lanche? Ora…
– Não. Por ter me ensinado a reconhecer um fascista!
(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.
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