NO DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL, QUE TAL FALAR DE NINA SALVI?

NO DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL, QUE TAL FALAR DE NINA SALVI?

18 de abril de 2020 Off Por Daniel Araújo

A beleza e o encanto da escritora Nina Salvi. FOTO: ÁLBUM DE FAMÍLIA. Gentilmente cedida pelo jornalista Lauro Jardim.

De estilo primoroso, essa mineira de Curvelo foi destaque na literatura infantil brasileira e conquistou o respeito internacional

Neste 18 de abril, comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil, em virtude de ser a data de nascimento do Mestre Monteiro Lobato (1882-1948). Dele reli, faz pouco tempo, os deliciosos contos de “Cidades Mortas”. Não é, porém, sobre o criador de Emília, Dona Benta e outros personagens daquele mágico sítio que pretendo discorrer desta vez.
Quero falar-lhes hoje de uma mulher incrível, natural de Curvelo e de enorme significado para a literatura infantil brasileira justo numa quadra em que o país só contava praticamente com… o mencionado Mestre Monteiro Lobato!

Noêmia de Salvo Souza, mais conhecida pelo pseudônimo Nina Salvi, nasceu a 25 de fevereiro de 1902, filha do Major Antônio Salvo e Dona Maria Bella Penna de Salvo, ele considerado o Pai da Imprensa Curvelana, pois fundou e dirigiu o primeiro jornal a circular na cidade em 1890.

Formada em Farmácia pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, Nina desenvolveu a arte de contar histórias quando começaram a chegar os filhos. No entanto, seu imenso talento literário talvez tivesse morrido distante do público ledor, não fosse a laringite que a acometeu por volta de 1936. Impossibilitada de falar por alguns dias, ela passou, então, a escrever. O estilo terso, a criatividade, a fértil imaginação, a força de sua sensibilidade e de seus relatos ganharam, assim, vida absolutamente autônoma. Por meio da fantasia, os personagens iam surgindo… Desabrochava, desse modo, a genial escritora, e nada mais seria capaz de detê-la.

O marido, professor José Roberto Vianna de Souza, consciente de que na amada sobravam engenho e arte, procurou incentivá-la ao máximo. Aliás, foi ele quem escolheu para ela o pseudônimo Nina Salvi e passou a enviar-lhe os contos para os concursos de literatura infantil instituídos pelo Ministério da Educação em 1937.

A OBRA

O livro “Ana Lúcia no País das Fadas” deu projeção internacional à escritora curvelana

Nina Salvi logo ganhou o primeiro prêmio: uma Menção Honrosa. Em seguida, vieram os três primeiros livros: “O Milho de Ouro”, “A Estória do Príncipe Abdel Assur” e “O Tesouro da Ilha”.

Com atividades intelectuais diversificadas, a escritora colaborou em várias revistas: “Sezinha”, “Era Uma Vez”, “Saci”, “Estrelas” e “Almanaque Juvenil”, dentre outras publicações.

Sempre identificada com as crianças, publicou em sequência os livros: “Dingo e Tucha”, “Tico e Teco”, “Princesinha Flor da Lua”, “Ana Lúcia no País das Fadas”, “Os Anões Encantados”, “Rosalinda”, “O Menino Jesus e a Borboleta”, “A Ceguinha do Poço”, “A Cobrinha Encantada”, “Belinha e Bolinha” e “Joaninha”.

Algumas de suas obras foram adaptadas para o teatro. Em 1944, “Ana Lúcia no País das Fadas” estreou com grande êxito no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, centro do Rio de Janeiro, sob a direção de Olavo de Barros.

A CRÍTICA

Penas das mais abalizadas nos meios jornalísticos e literários mobilizaram-se para exaltar as criações de Nina Salvi. A seguir, duas das inúmeras manifestações críticas a respeito, digamos, de uma maneira ‘salviana’ de fazer as ideias fluírem no papel:

  • “O trabalho de Nina Salvi contribui para a formação do verdadeiro espírito, pois ninguém ignora que as lendas de um país influem grandemente na unificação da pátria. Elas pertencem à tradição que nos une ao passado, que o presente respeita e transmite ao futuro”. (Vicente Guimarães, o Vovô Felício, em O Diário – Belo Horizonte, 18/12/1941)
  • “O mérito das histórias contadas por Nina Salvi ressalta às primeiras páginas, nas quais se passa logo a admirar a sua força de expressão e o seu modo todo particular de contar às crianças coisas belas. Os entrechos se ajustam perfeitamente à curiosidade fantasiosa dos pequenos leitores. Eles são por vezes movimentados e intensos, passando outros a se desenvolverem num plano álacre, em que tudo é mavioso e brando, em que a vida parece animada apenas por essa ingenuidade melíflua própria da infância. E a autora sabe como poucos criar tipos para que deles as crianças façam heróis. Obriga com isso os seus leitores a seguir o curso da vida das figuras que imaginou e à quais deu alma com entusiasmo crescente, à medida que as façanhas se desenrolam e vão preparando um desfecho sentimental”. (Estado de Minas, edição de 24/01/1939)

ALÉM-FRONTEIRAS

Em 1974, Nina Salvi teve a satisfação de ver “Ana Lúcia no País das Fadas”, já premiado no Brasil, selecionado e enviado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil à UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, onde foi recomendado e incluído entre as melhores obras internacionais do gênero ao qual a curvelana se dedicou como poucos. Nessa época, a beletrista já havia se tornado nome de bibliotecas e clubes de leitura Brasil afora, notadamente no seu estado de origem.

A FAMÍLIA

Nina Salvi com o marido, professor José Roberto Vianna de Souza, lendo “Belinha e Bolinha”. FOTO: ÁLBUM DE FAMÍLIA. Gentilmente cedida pelo jornalista Lauro Jardim.

Do casamento com o professor José Roberto Vianna de Souza, vieram-lhe os filhos Paulo, Cláudio, Ângela e Ana Lúcia, os quatro falecidos. Moram em Curvelo seus sobrinhos Antônio e Péricles Salvo e seus sobrinhos-netos Antônio e Gustavo Pitangui de Salvo, este presidente da AMCZ – Associação Mineira dos Criadores de Zebu, aquele presidente do Sindicato dos Produtores Rurais.

Diretamente do Rio, o jornalista Lauro Jardim, ex-redator-chefe da revista Veja e atualmente colunista de O Globo, conta-me como Nina Salvi, sua avó, teve influência nos rumos de sua carreira, quando ele, ainda na meninice, manteve os primeiros contatos com a linguagem escrita:

“Tive o privilégio de ouvir minha avó Noêmia {Nina Salvi} ler para mim alguns de seus livros antes mesmo de eu aprender a ler. Mais: passei dezenas de tardes com ela em seu apartamento de Copacabana escrevendo redações, com temas livres, que ela pacientemente corrigia. Ou melhor, mais do que corrigia, ela me incentivava a escrever mais. Entre os meus sete e nove anos de idade, redigi dezenas de textos sob o amoroso olhar dela. Até hoje tenho esses escritos guardados comigo”, declara Lauro Jardim, acrescentando: “Estou emocionado com esse apreço seu pela memória de minha avó”.

Jornalista Lauro Jardim, colunista de O Globo, é neto da escritora curvelana Nina Salvi

Confesso que meu interesse pelas criações dessa magnífica conterrânea só veio a ser suscitado após meu ingresso na AMULMIG – Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, graças aos profundos ensinamentos recebidos da imortal Alaíde Lisboa de Oliveira, autora do clássico “A Bonequinha Preta”, com quem tive o privilégio do convívio acadêmico. “Você precisa ler Nina Salvi”, aconselhou a Mestra.

Segui o conselho na certeza de que sempre é tempo de aprender… e de se abrir ao Belo… e ao Bom… por um motivo ou outro ainda desconhecidos… Então aprendi a viajar pelo universo onírico de Nina Salvi, com ganhos incomensuráveis para a solidificação de minha estrutura íntima.

Nina Salvi morreu a 5 de abril de 1992, deixando forte legado cuja importância e atualidade atravessarão os tempos.

 

Por Newton Vieira: Jornalista, ensaísta, contista e poeta, pertence, dentre outras instituições culturais, à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais – AMULMIG, ao Centro de Literatura do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana, ao Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, à Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências AlPAS 21 e à União Brasileira de Trovadores – UBT. Distinguido com prêmios nacionais e internacionais, recebeu, durante a Feira do Livro de Porto Alegre 2018, a comenda Personalidade Literária Internacional da Santa Sé. Recebeu a insígnia de Cavaleiro da Pontifícia Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém.