Home / COLUNAS / “EU VI MINHA MÃE REZANDO”
SIGA NO INSTAGRAM

“EU VI MINHA MÃE REZANDO”

O médico, poeta e trovador Barreto Coutinho, autor da trova “Eu vi minha mãe rezando”, era também pé de valsa. Aqui ele dança com Magdalena Léa em Maringá, no ano de 1970. FOTO: ARQUIVO DE A. A. DE ASSIS

A propósito do Dia das Mães, vai aqui um pouco sobre a mais bela trova referente à figura materna. A mais bela, claro, para mim. Ei-la:

“Eu vi minha mãe rezando

aos pés da Virgem Maria.

Era uma santa escutando

o que outra santa dizia…”.

Essa trova é da lavra do médico pernambucano Barreto Coutinho. Na verdade, o autor havia composto poema maior, com várias estrofes. A primeira era assim:

“Mãe – alma querida e santa

– astro de divino brilho,

cuja luz a treva espanta

dos dissabores do filho”.

A última estava vazada nestes termos:

“Por vossa infinda bondade,

Deus que eu creio e reconheço,

dai, pois, a mais longa idade

ao ser que eu tanto estremeço!”

Mais ou menos no meio do poema, havia esta outra:

“Uma vez vi-a rezando

aos pés da Virgem Maria.

Era uma santa escutando

o que outra santa dizia…”.

Exatamente essa quadra do meio desgarrou-se das demais e, com ligeira alteração no primeiro dos quatro versos, tornou-se a “celebridade da família”, como assinalou Luiz Otávio, o Príncipe dos Trovadores. Transformou-se em trova, isto é, ganhou existência própria, tomou a feição de poesia sintética com sentido completo. E talvez seja a trova brasileira mais conhecida.

Na íntegra, o poema saiu pela primeira vez no jornal “A Província”, do Recife, em 18 de janeiro de 1912. Trata-se, portanto, de trabalho poético centenário!

Ermírio Barreto Coutinho da Silveira, o autor, nasceu em 1893, na localidade de Limoeiro, no estado de Pernambuco. Morreu em 1976, em Curitiba/PR, onde passou a maior parte da vida. Sempre o admirei. Mas o coloquei entre os poetas de minha predileção depois de conhecer a estudiosa Maria Thereza Cavalheiro. Ela conviveu com o criador de “Eu vi minha mãe rezando” na intimidade.
Em 1980, forte boato assustou o meio intelectual, notadamente o trovadoresco. Alguém teria dito ao beletrista Durval Mendonça que a trova “Eu vi minha mãe rezando” foi vista em Coimbra, no famoso Penedo da Saudade, gravada em placa, como se fosse anônima e com data anterior a 1912, época em que veio a lume no Recife. No entanto, para felicidade geral dos brasileiros, Eno Teodoro Wanke esteve em Portugal, verificou a informação e desfez o engodo: – “Graças a essa visita, posso afirmar, enfaticamente, que não existe nem nunca existiu a gravação de tal trova no Penedo da Saudade”, escreveu o poeta e ensaísta no livro “Nós, os Trovadores” (Rio: Codpoe, 1991, p. 43).

Ufa! Por alguns momentos, o Brasil literário sofreu, apreensivo, a possibilidade de perder a autoria de verdadeira joia poética.
Com prazer, remonto mais de cem anos na História para chamar à baila a trova de Barreto Coutinho e o faço em homenagem à sensibilidade dos leitores, sobretudo das mães, as principais colaboradoras de Deus na Obra da Criação.

Os versos de “Eu vi minha mãe rezando” fazem parte da estrutura íntima de quantos já tiveram o privilégio de ouvi-los ou lê-los.

Feliz Dia das Mães!

 

Por NEWTON VIEIRA: – Jornalista, ensaísta, contista e poeta. Membro, dentre outras instituições culturais, da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais – AMULMIG, do Centro de Literatura do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, da Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências AlPAS 21 e da União Brasileira de Trovadores – UBT. Distinguido com prêmios nacionais e internacionais, recebeu, durante a Feira do Livro de Porto Alegre 2018, a comenda Personalidade Literária Internacional. Da Santa Sé recebeu a insígnia de Cavaleiro da Pontifícia Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém.

Veja Também

A ARTE DE CATAR FEIJÃO

Desde que a língua de Camões se fez a nossa, um eco repete o verso: ...

WhatsApp - ONLINE whatsapp