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22 DE ABRIL: “NAVEGAR É PRECISO”

Óleo sobre a tela de Aurélio de Figueiredo (1899) mostrando o desembarque de Cabral.

Neste 22 de abril, festejam-se os 520 anos do assim chamado “Descobrimento” da Terra de Santa Cruz, com a chegada de Pedro Álvares Cabral, cujos restos mortais, em parte, encontram-se na cripta da Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo, antiga Sé do Rio de Janeiro. Esses fragmentos de restos mortais do Descobridor foram reunidos a mando do Marquês de Pombal após o terremoto de 1755 e posteriormente doados ao Brasil.

CURIOSIDADE: Pedro Álvares era filho de Fernão Cabral e Isabel de Gouveia e, naquele tempo, segundo alguns pesquisadores, havia o costume de apenas o filho mais velho ostentar o sobrenome do pai. O imediatamente mais novo usava o da mãe, pelo menos até a morte do primogênito. Pedro Álvares tinha um irmão mais velho, por nome João Fernandes Cabral, que só teria morrido em 1508. Por causa disso, aventou-se a hipótese de que o Descobrimento do Brasil teria sido feito por Pedro Álvares de Gouveia. Só hipótese mesmo. Historiadores esclareceriam tudo depois.

De volta ao fato histórico, veja-se por este ou aquele ângulo, o episódio de 1500 corresponde a verdadeira façanha do espírito navegante dos portugueses.

É muito comum, nesta data, a lembrança de célebre frase frequentemente atribuída ao compositor Caetano Veloso e ao poeta Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”.

Na verdade, tais dizeres não surgiram propriamente com o poeta lusitano e gênio dos heterônimos nem com o artista baiano filho de Dona Canô.

Dos escritos do criador de Álvaro de Campos, no prólogo de sua poesia, constam os seguintes versos: – “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: / ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’”. Pessoa, observe-se, utiliza a sentença apenas a título de citação. Em momento algum assume sua autoria.

Também eu, durante longo tempo, acreditei que “Navegar é preciso, viver não é preciso” fosse da lavra de Fernando Pessoa (1888-1935). Comecei a desconfiar de que estava enganado quando resolvi aprofundar na leitura da obra pessoana.

Nas minhas andanças loucas à cata de livros, peguei emprestado na Biblioteca Pública Municipal e li atentamente o tomo VI de “Vidas dos Homens Ilustres”, de Plutarco (45 d.C. – 120 d. C.), publicado em 1962 pela Editora das Américas, São Paulo, com tradução de Carlos Chaves. Chegando à página 183, heureca! Deparei com a origem da sentença tão cara a Fernando Pessoa (“Quero para mim o espírito desta frase”, afirmou o mestre luso) e ao doutor Ulisses Guimarães. O verdadeiro autor? Gnaeus Pompeius Magnus, ou simplesmente Pompeu, filho de Estrabão.

Em síntese, a história se deu assim: – Diante do porto de Siracusa, na Sicília, na iminência de aterradora tempestade, aos marinheiros que tentavam demovê-lo da ideia de zarpar para Roma, o destemido general Pompeu (106 a. C. – 48 a. C.) exclamou “em latim desjeitoso”, segundo Deonísio da Silva: “Navigare necesse, vivere non necesse” – “Navegar é preciso, viver não o é!”

O argonauta tinha pressa de singrar as águas, pois deveria abastecer de trigo a Cidade Eterna e seus arredores, a fim de evitar rebeliões.

Estudioso cujo nome não lembro agora ressalta que Fernando Pessoa e Ulisses Guimarães imprimiram novo conceito à frase em apreço, empregando nela o termo “preciso” com o sentido de “exato”, em filosófica e poética interpretação.

Quem navega hoje, ao contrário da época de Pompeu, tem indicações extremamente precisas (isto é, minuciosas) dos rumos a serem tomados, das condições climáticas a serem enfrentadas, e vai por aí afora. Na vida, porém, nada há que indique de modo exato os caminhos a serem percorridos porque “viver é ‘et cetera’…” e, por isso, “muito perigoso…”, como afirmara Riobaldo, personagem de João Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”.

Se não há cartilhas a ensinar passo a passo como se deve viver, também não há razão para que se tenha medo do diferente ou inusitado, medo do flerte com os desafios e os riscos pertinentes ao existir. Ótima notícia para quem sempre ousa no afã de sempre vencer.

Tudo isso implica reflexões. E refletir também é preciso…

Por NEWTON VIEIRA: – Jornalista, ensaísta, contista e poeta. Membro, dentre outras instituições culturais, da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais – AMULMIG, do Centro de Literatura do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, da Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências AlPAS 21 e da União Brasileira de Trovadores – UBT. Distinguido com prêmios nacionais e internacionais, recebeu, durante a Feira do Livro de Porto Alegre 2018, a comenda Personalidade Literária Internacional. Da Santa Sé recebeu a insígnia de Cavaleiro da Pontifícia Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém.

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