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DELÉM E SIMONAL: UMA HISTÓRIA DA MPB

Foto: Calazans

Delém, que faria aniversário hoje (25/04), e AMCZ prestigiaram Simonal em Curvelo na época em que o Rei do Suingue mais sofria perseguição.

Nadar, com altivez, contra a corrente… Os curvelanos
autênticos parece que nascem para isso. E também para desafiar a tirania. Tem sido assim desde o período colonial, quando estourou nesta região a chamada “Inconfidência de Curvelo”, sob a liderança do padre Carlos José de Lima – preso, condenado ao degredo e, mais tarde, anistiado pela rainha dona Maria I. Os outros, se quiserem, que se tornem massas de manobra e se deixem conduzir. Os curvelanos de verdade jamais agirão como os carneiros de Panúrgio naquela célebre passagem da obra de Rabelais; pelo contrário: sempre se guiarão “pela própria cabeça”, consoante afirmava Alfredo Marques Vianna de Góes.
Concordo em gênero, número e caso com a assertiva do saudoso mestre Alfredinho.
E não foi diferente a posição da terra de Lúcio Cardoso no tocante ao patrulhamento ideológico sofrido pelo extraordinário cantor Wilson Simonal. Contarei, daqui a pouco, como se deu o fato. Ou melhor: o fato histórico.
Primeiro, cumpre-me recordar a trajetória do astro. Nascido no Rio, em 1939, Wilson Simonal começou a carreira na década de 1960. Cantava para gatos-pingados em alguns bailes. Descoberto pelo compositor Carlinhos Imperial, tornou-se presença obrigatória nos programas de televisão, alcançou enorme popularidade e atingiu o topo das paradas. Questão de mera sorte? Em absoluto. Tudo veio graças à inconfundível voz, à luminosa simpatia e ao contagiante balanço, principal responsável pelo seu merecido título de Rei do Suingue.
Nove anos depois de morto, Sua Majestade voltou a andar na crista da onda, com o lançamento do documentário “Simonal – Ninguém sabe o duro que eu dei”, de Cláudio Manoel, Calvito Leal e Micael Langer. Em tão somente 12 semanas, o filme teve cerca de 70 mil espectadores, contribuindo para o resgate da imagem do artista, sobretudo entre os brasileiros mais jovens. Muita gente boa não sabia ou não se lembrava, por exemplo, da sensacional apresentação do intérprete de “Sá Marina” ao lado de Sarah Vaughan. Sim, ele dividiu espaço com a dona de uma das mais poderosas vozes dos Estados Unidos. Sarah Vaughan, convém ressaltar, forma com Ella Fitzgerald e Billie Holiday a santíssima trindade feminina do jazz.
Em consequência do documentário, o Rei do Suingue ganhou outra homenagem: o “Baile do Simonal”, no Rio de Janeiro, com direção musical de seus filhos Max de Castro e Wilson Simoninha. Participaram do tributo, divulgado em CD e DVD pela EMI, figuras do calibre de Maria Rita, Caetano Veloso, Marcelo D2, Lulu Santos, Frejat, Rogério Flausino, Sandra de Sá, Samuel Rosa, Seu Jorge, Fernanda Abreu, e por aí vai… Nada mais belo. Nada mais justo. Só lamento não ter ocorrido antes de 2000, ocasião em que o cantor, pobre e esquecido, recebeu a visita da “indesejada das gentes” em São Paulo.
Envolveram Simonal nas brumas do esquecimento a partir de 1972. Acusaram-no de mandar surrar um contador e colaborar com órgãos de repressão do governo militar. Em outra versão, ele teria mandado dar “um susto” no contador, e as pessoas designadas para tal cometeram excessos.
O certo é que, por causa desse episódio, Simonal foi praticamente banido do meio artístico. Seus discos desapareceram das lojas. As rádios deixaram de tocá-lo. Contratos e apresentações tornaram-se cada vez mais escassos. Colegas fugiram dele como o diabo foge da cruz.
Mas os curvelanos genuínos – dizia eu lá atrás – “guiam-se pela própria cabeça” e mandam às favas os preconceitos ou pré-julgamentos de qualquer jaez.
Pois bem. Esses curvelanos corajosos, tendo à frente o radialista Marcos Matias, o Delém, em 2013 transformado em saudade, e o fazendeiro Márcio Viana, à época presidente da Associação Mineira dos Criadores de Zebu (AMCZ), numa atitude diametralmente oposta à do resto do país, contrataram o Rei do Suingue para animar a Exposição Agropecuária de 1986. Patrulheiros ideológicos torceram pelo fracasso do empreendimento. “Os ingressos vão encalhar”, propalavam de canto a canto na cidade. E não é que, na última hora, o espetáculo quase teve mesmo de ser cancelado?! Não por falta de público. O parque, cujo epônimo agora é o benfeitor Antônio Ernesto de Salvo, estava lotado de fãs de todas as idades. O problema era outro. Simonal tinha ido a eventos de promoção da Copa Fifa no México, de onde retornaria especificamente para se apresentar aqui. Ao desembarcar no Rio, teve esta desagradável surpresa: não haveria voo tão cedo para Minas Gerais. Telefonou para Delém, de quem já era amigo, e contou a dificuldade em conseguir transporte. Otimista incorrigível, pediu ao radialista mantivesse a calma e tranquilizasse a diretoria da AMCZ: “Não desista de mim, meu irmão. Vou dar um jeito de chegar aí. Pode confirmar o show”.
Do Rio Simonal se dirigiu a Sampa e lá encontrou uma forma de pisar o quanto antes no solo mineiro. Mas já eram duas da madrugada quando ele subiu ao palco da tradicional feira de gado e, com a energia e o carisma que Deus lhe deu, abriu a garganta e fez a plateia vibrar, esquecendo a longa espera e o cansaço. Aliás, quem falou em cansaço? Alguém sentiu isso? Eu não. Estive, confesso, foi à beira da loucura. Cantei, dancei e pulei ao mesmo tempo, tamanha a euforia, ao som de “Carango”, “País tropical”, “Meu limão, meu limoeiro”, “Mamãe passou açúcar em mim” e outros sucessos de ritmo eletrizante.
Passados tantos anos, tenho consciência de que não me diverti, apenas, naquela noite inesquecível de 1986. Fiz algo muito mais significativo: testemunhei importante episódio na História deste meu torrão. Eu vi Simonal cantar em Curvelo num momento em que a perseguição contra ele grassava nos mais diversos setores da sociedade brasileira.
Alegra-me hoje vê-lo renascer das cinzas, à guisa de fênix, só para ratificar a velha sentença cunhada pelo povo: “Uma vez rei, sempre majestade”.
Como se vê, engana-se a si mesmo quem se acha capaz de colocar e manter no ostracismo os expoentes da cultura de um lugar.
Assim como Simonal, seu amigo, Delém não ficará esquecido de jeito nenhum, embora esteja “encantado”, como diria Guimarães Rosa.

 

Por NEWTON VIEIRA: – Jornalista, ensaísta, contista e poeta. Membro, dentre outras instituições culturais, da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais – AMULMIG, do Centro de Literatura do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, da Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências AlPAS 21 e da União Brasileira de Trovadores – UBT. Distinguido com prêmios nacionais e internacionais, recebeu, durante a Feira do Livro de Porto Alegre 2018, a comenda Personalidade Literária Internacional. Da Santa Sé recebeu a insígnia de Cavaleiro da Pontifícia Ordem do Santo Sepulcro de Jerusalém.

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