Compartilho com todos, hoje, minha versão do famoso “Pour faire le portrait d´un oiseau” do grande Jacques Prévert:
Desenhe primeiro uma gaiola
Com a porta aberta.
Pinte depois
Algo de belo
Algo de simples
Algo de bom
Para o pássaro.
Pendure então a tela em uma árvore
Num bosque
Num jardim
numa floresta.
Esconda-se atrás de uma árvore
Sem nada dizer
Sem se mexer.
Às vezes o pássaro chega depressa
Mas ele pode demorar muitos anos
Antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere se preciso longos anos.
A rapidez ou a demora da chegada do pássaro
Não tem relação
Com o sucesso do quadro.
Quando o pássaro chegar
Caso ele chegue
Mantenha o mais profundo silêncio.
Espere que ele entre na gaiola
E quando entrar
Feche docemente a porta com uma espátula
E apague uma a uma cada barra
Cuidando de não tocar nenhuma pena da ave.
Faça em seguida o retrato da árvore
Escolhendo o mais belo de seus galhos
Para o pássaro.
Pinte a verde folhagem e o vento
A poeira do sol
O rumor dos insetos no calor de verão
E depois espere que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
É mau sinal:
Significa o desacerto do retrato.
Mas se ele cantar é bom sinal:
Quer dizer que você pode assiná-lo.
Então tome docemente
Uma das penas do pássaro
E escreva seu nome num canto do quadro.
(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.
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