Home / COLUNAS / Afonso Guerra-Baião / CATAR FEIJÃO NA MÁQUINA DO TEMPO

CATAR FEIJÃO NA MÁQUINA DO TEMPO

Esqueci onde tinha estacionado o carro e um amigo me zoou: “Isso é problema de DNA”. Então lembrei a ele que, hoje, todo mundo com mais de dezesseis anos está na vala comum da data de nascimento antiga: todos nascemos no século passado. Meu amigo, que tinha lido o Umberto Eco semiólogo, questionou se eu não estava usando uma overdose de estruturas de consolação.

Que seja, respondi, mas você não pode negar o otimismo equânime do meu ponto de vista: os jovens são contemplados com uma aura de maioridade, objeto de seus desejos; e, para os adultos, é um alívio compartilhar com eles o peso dessa carga temporal.

Brincadeiras à parte, o tempo não para, como diz a canção do eterno Cazuza. E, no fluxo desse riocorrente, uma concha recupera um mantra do passado: “O tempora, o mores”. O que me faz pensar: já não se estuda latim como antigamente. O que me leva a concluir: meu amigo tem razão, estou mesmo com um problema de DNA.

De uma época em que, caetaneando, já a língua de Camões roçava a nossa, um eco repete o verso: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Mudam-se – oh tempos! – os costumes. Hoje em dia não se usa mais, por exemplo, catar feijão. Em minha infância, quantas vezes não deixei as brincadeiras de rua ou de terreiro para sentar-me diante de uma peneira de taquara, concentrado em selecionar os bons grãos de feijão, descartando os ruins, eliminando as impurezas. Muita gente que só conhece o feijão que dá nas prateleiras dos supermercados, já limpinho e embalado, talvez tenha mais dificuldade que eu para ler o poema CATAR FEIJÃO, de João Cabral de Melo Neto. Nesse poema, João Cabral afirma que “catar feijão se limita com escrever”. Será por isso que tenho certa facilidade para a escrita?

Deve ser por isso, diz aquele meu amigo da onça, que sua sintaxe está ficando fora de moda.

– É, talvez eu deva me dedicar mais aos smartphones, aos aplicativos et caterva.

– Amigo da onça? Et caterva? Você é um caso perdido…

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

Veja Também

PIT STOP DA VISITAÇÃO

            Convido você a visitar comigo um grande homem do passado. Ele foi visto pela ...

Publicidade