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DAVID BOWIE E O SACI

Assombração sabe para quem aparece, diz Ana Maria. O que Ana Maria fala eu escrevo. E, para escrever sobre assombração, nada melhor que voltar ao sítio da Dona Benta, onde tudo se encanta e desencanta misturadamente. É lá que ouvimos a conversa entre Saci e Pedrinho, em que o encantado personagem de Lobato desencanta mistérios desse mundo. Diz o Saci: “A mãe do medo é a incerteza e o pai do medo é o escuro. Enquanto houver escuro no mundo, haverá medo. E enquanto houver medo, haverá monstros”.

Então eu me lembro de um verso da canção de David Bowie, que a banda “Nenhum de Nós” recriou para nós com o título “O Astronauta de Mármore”: “O tolo teme a noite como a noite vai temer o fogo”.

A idade das trevas produziu a superstição, que gerou o medo, que facilitou a vida de tiranos, tiranias e santas inquisições. Na Renascença e no Iluminismo o Homem se redescobriu como centro do universo e fez da razão ferramenta para lutar por liberdade, igualdade, fraternidade.

E hoje, na era da ciência, da tecnologia, da informação? O filósofo Jurgen Habermas demonstrou que a técnica e a ciência podem ser usadas como ideologia. O que é ideologia? Um sistema de ideias através do qual uma classe dominante apresenta e impõe sua versão do real. Para que poucos dominem a mente de muitos, é preciso produzir novas trevas para os novos tolos. Trevas enfeitadas com lantejoulas e pisca-piscas. Engodos que levam muitos hoje a repudiar os direitos humanos e as políticas de bem-estar social, em favor de uma volta à barbárie, à lei do mais forte, ao salve-se quem puder. Embustes neoliberais que condicionam o desenvolvimento econômico ao sacrifício dos direitos trabalhistas e previdenciários.

Pois é, as assombrações sabem para quem aparecer: estudam o mercado, desenvolvem métodos e técnicas de como e onde surgir, arrasando no ibope, arrastando multidões.

Voltando à conversa lá no Sítio do Pica-pau Amarelo, o Saci diz a Pedrinho que os monstros existem para quem acredita neles. A fala do Saci ensina que é possível escolher: você quer botar seu bloco na rua ou quer ser levado no arrastão de modernosas e velhacas assombrações?

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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