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A IDADE DA TERRA

            Naquele tempo a Terra começaria a receber visitações. Para alguns, os Visitantes eram criaturas sobrenaturais, Anjos e Demônios; para outros, tratava-se de alienígenas extraterrestres. Fosse o que fosse, o Visitante nunca se apresentava na forma de um ente, mas se manifestava como um fenômeno: anunciado por um estrondo formidável, que quebra vidraças e arrebenta tímpanos, Ele rompe a atmosfera como um bólido luminoso que cega quem o olhar. Seu impacto no solo se propaga como mais estrondo, terremoto, tempestade. Então, Ele se ergue na forma de tornado, que faz sair de sua espiral pequenos redemoinhos. Estes percorrem os campos, as vilas, a cidade. Tocados pelos redemoinhos, paralíticos andam e doentes desenganados saram; mas muitos adoecem, sofrem mutilações ou caem fulminados. Outros são arrebatados ou abduzidos, no momento em que, na volta dos redemoinhos, o tornado se recolhe e, com nova explosão, com todos os impactos que o ruflar de asas gigantes poderia provocar, Ele rasga como bólido o espaço em direção a seus insondáveis domínios.

            O povo vive em pânico, pois os danos superam os benefícios das visitações. Multidões ocupam as instalações à prova de sismos das indústrias e dos shoppings, invadem os metrôs e protestam diante dos inabaláveis bunkers da casta dominante. Quando os soldados se juntam aos rebeldes, o Senhor da Terra decide receber um representante do povo: um homem que diz ter recebido, em sonhos, a solução para os tormentos das visitações.

            Na sala do trono, o homem diz ao Senhor da Terra que a fórmula para aplacar a ira dos visitantes está escrita em um livro muito antigo, há tempos esquecido na babélica biblioteca da fortaleza. Ele sabe em que prateleira e em qual corredor do labirinto se encontra o livro, em cuja capa está escrito NOVO TESTAMENTO. Ele sabe em que páginas se encontram, marcadas, as mensagens. Uma delas diz: olhai os lírios do campo, que não fiam nem tecem. Na mesma página, duas outras estão grifadas: olhai as aves do céu, que não semeiam nem colhem; não andeis preocupados com o que haveis de comer ou de vestir.

            O Senhor da Terra se indigna: toda nossa riqueza, diz ele, é construída pelo trabalho nos campos e nas fábricas. Essa mensagem é insensata!

            O homem do povo diz: é preciso dar descanso á terra, limpar as águas, purificar o ar; é preciso diminuir a jornada dos trabalhadores e repartir com eles os lucros.

O Senhor da Terra dá um murro na mesa: agora você extrapolou, grita ele, onde está escrita essa insanidade?

O homem do povo não precisa procurar para abrir a exata página onde outra mensagem está marcada: se queres ser perfeito, reparte com os pobres todos os teus bens.

O Senhor da Terra dá por encerrada a audiência, irritado e triste.

O representante do povo deixa a fortaleza por uma portinhola lateral. Frente à ponte levadiça do portão principal, a multidão cada vez mais compacta faz tremular seus estandartes. Seu canto atravessa as paredes do castelo, como o trovão de novos visitantes.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

NOTA –  Tomei emprestado ao último filme de Gláuber Rocha o título dessa parábola. A situação inicial da narrativa parafraseia a do conto “HELL IS THE ABSENCE OF GOD”, de Ted Chiang, do qual se afasta totalmente em seu desenvolvimento.

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