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NARRATIVAS EXEMPLARES

A palavra inglesa “crucible” tanto significa caldeirão quanto julgamento. O caldeirão pode ser o dos alquimistas ou o das bruxas. Tanto os alquimistas quanto as bruxas já estavam condenados ao fogo, antes mesmo do fim de suas inquisições: o fogo punitivo, se negassem as culpas que lhes eram imputadas; o fogo purgativo, caso se confessassem culpados e arrependidos. Nesses julgamentos, era negado aos acusados o conhecimento de quem os acusava, mas aos acusadores era permitido citar quem bem lhes aprouvesse. As acusações valiam como provas, bastando haver algum indício que as corroborasse: uma marca no corpo, um objeto suspeito, uma atitude duvidosa.

Um texto exemplar, que trata desse tema com grande força dramática (quer na construção dos personagens, na recriação do ambiente histórico ou no vigor de sua linguagem), é a peça “The Crucible”, de Arthur Miller. Existem traduções em português intituladas “As feiticeiras de Salém” e “As bruxas de Salém”. Com esse último título há também o filme de Nicholas Hytner, com Daniel Day-Lewis e Winona Ryder. A peça de Arthur Miller é uma metáfora denunciadora do macarthismo. Sobre o macarthismo vale copiar esse trecho da Wikipédia: “é o termo que descreve um período de intensa patrulha anticomunista e perseguição política nos Estados Unidos nos anos 50. Durante o macarthismo, milhares de americanos foram acusados de ser comunistas, tornando-se objeto de investigações agressivas. A maior parte dos investigados pertencia ao serviço público ou eram artistas, cientistas, educadores e sindicalistas. As suspeitas eram freqüentemente dadas como certas, mesmo com investigações baseadas em dados parciais e questionáveis. Muitos perderam seus empregos e tiveram as carreiras destruídas, outros foram presos e alguns foram levados ao suicídio”.

Outro importante texto literário sobre o macarthismo é o romance “Casei com um comunista”, de Philip Roth (Companhia das Letras), em que um ator de rádio é denunciado pela própria esposa a um júri de instrução, montado para caçar simpatizantes do comunismo.

Dentro do mesmo tema, destaca-se “O livro de Daniel”, de E. L. Doctorow (Nova Cultural), que revisita um dos momentos mais traumatizantes da história americana: a execução do casal Rosenberg, nos anos 50, num julgamento em que faltaram provas e sobrou a manipulação da opinião pública.

Estas são narrativas exemplares porque nos permitem não só vivenciar um passado drama alheio, mas também porque nos abrem os olhos para ver com mais lucidez o nosso drama atual, dissipado talvez nas névoas das paixões, na “fé cega, faca amolada” das convicções irrefletidas e dos preconceitos racionalizados.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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