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O COVID-19 ou A COVID-19? DICAS DE PORTUGUÊS EM TEMPO DE PANDEMIA

Embora o país se encontre em estado de calamidade, o idioma não deve ser tratado com pouco-caso em hipótese nenhuma. Afinal, a linguagem o quanto possível escorreita determina a eficácia da informação e confere autoridade ao discurso.  Daí a ideia dos comentários a seguir sobre questões suscitadas pelos leitores neste tempo de pandemia.

Não tive a pretensão de aprofundar ou esgotar os assuntos. Outros estudiosos, de melhor cabedal linguístico, poderão fazê-lo oportunamente, colmatando as lacunas por mim deixadas.

De qualquer modo, espero tenha este artigo alguma utilidade.

Vamos aos tópicos. 

O COVID-19 ou A COVID-19?

“As siglas se incorporam de tal forma ao vocabulário do dia a dia, que passam a sofrer flexões e a produzir derivados” (1). Por causa disso, nem sempre quem fala ou escreve em português se dá conta de que emprega verdadeiras siglas importadas de outra língua. Alguns exemplos: JIPE (automóvel) – adaptação do inglês Jeep, originado de GP (General Purpose – uso geral); LASER – vem de Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation (amplificação da luz por emissão estimulada de radiação); RADAR – saiu de Radio Detecting and Ranging (detecção e busca por rádio).

Covid-19 também nasceu sigla. Três elementos a compõem: corona + vírus + doença (co de corona + vi de vírus + d de doença). O numeral 19 corresponde ao ano em que a moléstia se tornou conhecida.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) segue determinadas diretrizes ao batizar as enfermidades.  Evita mencionar animais, indivíduos e grupos de pessoas. Procura ainda não aludir a localizações geográficas, pois sempre há risco de equívoco. Basta lembrar a gripe espanhola (1918-1920), cuja origem, na verdade, não teria sido na Espanha, onde recebeu o apelido de “’la dansarina”.

Mas, afinal: o covid-19 ou a covid-19? Por trazer implícito o termo “doença” (disease em inglês), o substantivo covid-19 classifica-se como feminino: a covid-19, isto é, a doença do coronavírus surgida ou descoberta em 2019. Ex.: “A queda dos juros minimiza o impacto da covid-19 nas pequenas empresas”.

 

MAIÚSCULA OU MINÚSCULA?

Josué Machado explica que “não há razão para grafar nomes de doenças com maiúsculas”. E prossegue, socorrendo-se ao bom humor: “Escreve-se sarna, pefelite, sífiles, pemedebite, artrose, nepotismo, conjuntivite, petite, filhotismo, diabetes, pepebite, sida” (2).

Sida, de Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, corresponde a aids (Acquired Immunodeficiency Syndrome) e passou pelo mesmo processo de formação de covid-19. Donde se conclui que covid-19 só deve vir com inicial maiúscula quando estiver a introduzir frase. Ex.: “Covid-19 é doença sistêmica”. Mas: “Morreu de covid-19 o compositor e escritor Aldir Blanc; “Milhares de pessoas contraíram a covid-19 em São Paulo.

 

ASSISTIR AO PRONUNCIAMENTO

“É importante assistir ao pronunciamento do ministro da Saúde” ou “É importante assistir o pronunciamento do ministro da Saúde”?

Apresenta-se aí um caso de regência verbal. Chama-se regência verbal a relação estabelecida entre os verbos e os termos que os complementam (objetos diretos/indiretos) ou os caracterizam (adjuntos adverbiais). É matéria que requer estudo mais aprofundado. Mestre Aires da Mata Machado Filho, ao prefaciar o Dicionário de Verbos e Regimes, obra monumental de outro mestre, Francisco Fernandes, assim se expressou sobre o tema: “As dificuldades reais da língua cifram-se, quase sempre, em dúvidas de regência” (3).

Então como fica a regência do verbo assistir? Na acepção de prestar auxílio, assistir é transitivo direto e pede objeto direto. Ex.: “O médico assistiu o paciente acometido de covid-19”. Admite a voz passiva: “O paciente foi assistido pelo médico”. Já com o sentido de ver, caso em tela, assistir é transitivo indireto e deve vir acompanhado da preposição a: “É importante assistir ao pronunciamento do ministro da Saúde”; “Enquanto durar a pandemia, os fiéis assistirão à missa pelas redes sociais”.

PREVENÇÃO DE ou PREVENÇÃO A?

“A máscara ajuda na prevenção do coronavírus” ou “A máscara ajuda na prevenção ao coronavírus”?

Trata-se de regência nominal, isto é, da relação que se estabelece, por intermédio de uma preposição, entre um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio) e os termos por ele regidos.

Consigna o Dicionário Prático de Regência Nominal, de Celso Pedro Luft: “prevenção é substantivo feminino e, em sua regência, pode exigir as preposições a, contra ou de. Prevenção é precaução, cautela a, contra ou de” (4). Acerta, portanto, quem escreve prevenção ao coronavírus, prevenção do coronavírus ou prevenção contra o coronavírus.

No Dicionário de Regimes de Substantivos e Adjetivos, no verbete prevenção, Francisco Fernandes inclui também as preposições com e para. Registra o Gênio Autodidata: “Estar de prevenção com uma pessoa ou coisa – ter razões para estar contra ela antecipadamente” (5).

Como se vê, a preposição pode alterar completamente o sentido da mensagem.

 

DIFÍCIL DE FAZER

“Teste em massa é difícil de se fazer”.

De se fazer, vírgula! Convém mandar às favas a partícula apassivadora se. Ocioso empregá-la. O enunciado ficaria melhor destarte: “Teste em massa é difícil de fazer”.

O verbo no infinitivo (fazer), como complemento nominal do adjetivo (difícil), já vem revestido de caráter passivo, conforme ensina o catedrático José Dias Lara (6).

A propósito, veja estes versos lapidares do brilhante magistrado, escritor e poeta Adelmar Tavares, membro da Academia Brasileira de Letras: “Oh linda trova perfeita/ que nos dá tanto prazer!…/ Tão fácil – depois de feita…/ tão difícil de fazer!” (7).

 

A PARTIR DE

“Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como rainha dentro de uma frase que não a esperava” (8). A afirmação é do poeta chileno Pablo Neruda, que escrevia em espanhol, mas deve ser levada em conta pelos usuários dos demais idiomas. É máxima de valor universal e mostra a importância da propriedade vocabular.

Todas as palavras ou expressões têm serventia, desde que empregadas no lugar apropriado.

É impróprio, por exemplo, o emprego de a partir de em construções do tipo: “Levantamento feito a partir de dados dos cartórios revela que o número de mortos pela covid-19 é bem maior”. Com simplicidade e correção, o enunciado ganharia outro aspecto: “Levantamento feito em dados dos cartórios revela que o número de mortos pela covid-19 é bem maior”.

A partir de significa a começar de. Ex.: “A partir do meio-dia, o programa estará no ar”. Por isso, evite dizer ou escrever: “O programa vai começar a partir do meio-dia”. Começar a partir de é tão redundante quanto elo de ligação, escalada crescente, exultar de alegria, habitat natural, encarar de frente, fato verídico, néctar dos deuses, planejar com antecedência, adiar para depois, e por aí vai…

Outra coisa: nada de colocar indicador de crase nessa locução prepositiva. À partir de (com acento)? Jamais! Nem no mais intenso dos delírios.

 

SOBRE DECRETO

Em face da pandemia, decretos são editados um atrás de outro. E algumas dúvidas são suscitadas. Deve-se grafar Decreto (com maiúscula) ou decreto (com minúscula)?

Cabe a versal no início da palavra quando o diploma vem especificado. Ex.: “Alterada a Lei de Uso e Ocupação do Solo”; “Ainda está em vigor o Decreto 4.039, de 16 de março de 2020”; “O distrito-sede de Curvelo foi elevado à categoria de cidade pela Lei 2.153”.

Em outras situações, deve-se optar pela caixa-baixa. Ex.: “Cazares será multado por descumprir decreto e dar festa em Lagoa Santa”.

Quanto à pontuação na referência a textos legais, esclarece a professora Dad Squarisi: “Guarde isto: se a referência obedecer à ordem crescente, dispense a vírgula. Caso contrário, dê-lhe passagem com banda de música e tapete vermelho” (9). Exemplifico: “Alínea b do inciso VII do artigo 3º do Decreto 4.039”. Ou: “Decreto 4.039, artigo 3º, inciso VII, alínea b”.

 

ESTÁGIO ou ESTÁDIO?

Consoante o vernaculista Pedro Sérgio Lozar (10), constitui impropriedade o emprego de estágio na acepção de “fase, etapa, período”. A palavra recomendável seria estádio, que também designa campo para jogos ou provas esportivas. Ex.: “Em Minas Gerais, a covid-19 chegará ao estádio de pico no próximo mês”.

Outros entendidos, no entanto, estribados em dicionários como o Michaelis, consideram os vocábulos sinônimos no exemplo citado. De acordo com eles, estaria igualmente de bem com o vernáculo quem escrevesse: “Em Minas Gerais, a covid-19 chegará ao estágio de pico no próximo mês”.

Então cada um use o substantivo que quiser. Eu concordo com o professor Pedro Sérgio Lozar em gênero, número e caso. Continuarei a usar estádio. Questão de preferência? Que seja!

CURIOSIDADE: – Li algures que, na Idade Média, estágio (“período de preparo e aprendizado profissional, situação transitória de preparação para um cargo ou carreira”) designava o tempo que o vassalo era obrigado a passar no castelo do senhor feudal para prestar-lhe assistência.

 

PRECAVENHA-SE ou PREVINA-SE?

Observe a sentença: “Precavenha-se contra o coronavírus, lavando sempre as mãos”.

Está escrita como manda o figurino? Em absoluto! Defectivo, o verbo precaver(-se) não pode ser conjugado em todos os modos, tempos e pessoas. Também “não se deriva de ver nem de vir” (11). No imperativo afirmativo, só existe na segunda pessoa do plural: precavei(-vos). No caso vertente, recomenda-se o emprego de outro verbo com o mesmo significado: prevenir(-se), acautelar(-se).  Escoimada do erro, a sentença ficaria assim: “Previna-se contra o coronavírus, lavando sempre as mãos” ou “Acautele-se contra o coronavírus, lavando sempre as mãos”.

 

CORRELAÇÃO DOS TEMPOS

“O Rio não atualizava os dados da covid-19 cinco dias por causa da mudança de critérios feita pela Secretaria de Estado da Saúde”.

Quem redigiu o enunciado acima deixou de observar o princípio da correlação dos tempos, a consecutio temporum da gramática latina.

O verbo haver deve ir para o pretérito imperfeito (havia) a fim de se harmonizar com a forma verbal atualizava: “O Rio não atualizava os dados da covid-19 havia cinco dias por causa da mudança de critérios feita pela Secretaria de Estado da Saúde”.

ÁLCOOL EM GEL ou ÁLCOOL GEL?

Às vezes, um substantivo assume o papel de adjetivo para especificar determinado termo ao qual se junta com ou sem o traço de união. Ex.: caneta-tinteiro, comício-relâmpago, funcionário fantasma, trens fantasmas. Por esse prisma, álcool gel não apresentaria problema algum.  No entanto, álcool em gel se me afigura a expressão mais consentânea ao espírito da língua. Se há sabão líquido, sabão em barra e sabão em pó, por analogia, tem de haver álcool líquido e álcool em gel. Ex.: “Sempre que possível, higienize as mãos com álcool em gel”.

Ah, sobre o substantivo/adjetivo fantasma, observe que ele repele o hífen e sofre flexão numérica (12).

IMINENTE e EMINENTE

Eminente, iminente, eminência e iminência são parônimos, isto é, vocábulos semelhantes na escrita e na pronúncia, mas diferentes no significado. Eminente: ilustre, elevado; iminente: prestes a acontecer; eminência: superioridade, proeminência, tratamento para cardeais (Sua Eminência, Vossa Eminência); iminência: ameaça, urgência, qualidade, condição ou característica do que é iminente. Por isso, enquanto enfrenta a covid-19, o Brasil precisa também buscar soluções para a crise econômica iminente, e não para a crise econômica eminente. Se bem que, no meu entender, essa crise já se tenha instalado no país.

A troca de eminente por iminente constitui esparrela na qual costumam cair até pessoas tidas como todo-poderosas. Jarbas Passarinho comandava o Ministério da Educação, sob a presidência de Médici, quando recebeu, do reitor de renomada universidade, ofício em que era solicitado aumento de verba ao “iminente ministro”. Que fez Passarinho? Devolveu a correspondência ao remetente, argumentando que já ocupava o cargo em Brasília havia meses e, portanto, não se encontrava mais na iminência de tomar posse (13).

CURIOSIDADE: – Eminência parda é aquele assessor ou conselheiro que atua nos bastidores, mas consegue exercer grande influência nas decisões políticas. Muitas vezes, é ele quem dá as cartas no jogo do poder. O termo surgiu na França, com o capuchinho Joseph du Tremblay, braço direito do cardeal de Richelieu.  O religioso usava batina bege (denominada parda, na época).

REFERÊNCIAS

1 – CIPRO NETO, Pasquale & INFANTE, Ulisses. Gramática da Língua Portuguesa. São Paulo: Scipione, 1998, p. 106.

2 – MACHADO, Josué. Língua Sem Vergonha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 248.

3 – FERNANDES, Francisco. Dicionário de Verbos e Regimes. Rio de Janeiro/Porto Alegre/São Paulo: Editora Globo, s. d., p. 11.

4 – LUFT, Celso. Dicionário Prático de Regência Nominal. São Paulo: Editora Ática, 5ª edição.

5 – FERNANDES, Francisco. Dicionário de Regimes de Substantivos e Adjetivos. Rio de Janeiro/Porto Alegre/São Paulo: Editora Globo, s. d., p. 286.

6 – LARA, José Dias. Dicionário de Dúvidas e Dificuldades da Língua Portuguesa. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1998, p. 89.

7 – TAVARES, Adelmar. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1958.

8 – NERUDA, Pablo. Confesso que vivi – Memórias. Trad.: Olga Savary. Rio de Janeiro: Difel – Difusão Editorial S. A., 1978.

9 – SQUARISI, Dad. Correio Braziliense. Ed. de 5-4-2020.

10 – LOZAR, Pedro Sérgio. Fale sem receio, escreva com prazer. Belo Horizonte: Armazém de Ideias/FAPI, 2001, p. 65.

11 – SACCONI, Luiz Antonio. Gramática Essencial Ilustrada. São Paulo: Atual Editora, 1994, p. 169.

12 – SQUARISI, Dad. Correio Braziliense. Ed. de 20-2-2018. Explica a professora: “Substantivo usado como adjetivo, fantasma tem duas manhas. Uma: grafa-se sem hífen. A outra: flexiona-se no plural”.

13 – O caso envolvendo o ministro Jarbas Passarinho vem relatado em: OLIVA, Jero. Brasil e Portugal: Desencontros de Linguagem. Belo Horizonte: Nova Alvorada Edições Ltda., 1999, p. 39.

Por: NEWTON VIEIRA – Jornalista, escritor, pesquisador e poeta. Membro, dentre outras instituições culturais, da Academia Internacional de Letras, Artes e Ciências ALPAS 21, da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, do Centro de Literatura do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana e da União Brasileira de Trovadores – UBT. Foi editor do jornal CN – Curvelo Notícias, diretor de Redação da revista Pequi Magazine e revisor da editora Armazém de Ideias. Escreve para a Revista da Academia Mineira de Letras e outras publicações. Recebeu prêmios literários no Brasil e no exterior. Na Feira do Livro de Porto Alegre, foi distinguido com a Comenda Personalidade Literária Internacional 2018.

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