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O HOMEM DE UM LIVRO SÓ

Tenso, inquieto, incapaz de estar consigo mesmo por algum tempo, o passageiro da poltrona ao lado puxou conversa:

– Você digita sem olhar pro teclado, hein? – ele apontou o notebook sobre meus joelhos.

– É. Graças à velha e boa datilografia.

– Algum relatório?

– Não. É uma crônica.

-Ah… Crônica… Sei… Sobre o quê?

– Sobre livros. Dicas de presentes para o fim de ano.

– Sabe, disse o cara com certa gravidade, eu sou homem de um livro só.

– E qual é?

– A Bíblia.

Eu não disse a ele que a Bíblia é um conjunto de vários livros, escritos por autores diversos em tempos diferentes. Mas fui incapaz de resistir a uma provocação:

– Tomás de Aquino diz temer o homem de um livro só.

– Esse Tomás é comunista? – ele franziu os sobrolhos.

– Era teólogo, doutor da Igreja Católica.

– Tem muito doutor comunista por aí, até na igreja.

– E tem comunista que é seguidor de um livro só – provoquei de novo.

– Bobagem. Eles querem mesmo é divisão, gostam de partidarizar tudo, até nas escolas…

Tentei retomar minha crônica, mas o vizinho precisava preencher seus vazios, espantar suas inseguranças, esquecer o medo de altura. E voltou à carga:

– Sabe, pra mim tudo deve ser inteiro, sem partes: um livro só, um Brasil só…

– O todo sem a parte não é todo – recitei.

– Isso também é do Doutor Tomás?

– Do Doutor Gregório de Matos.

– Doutor, é? Talvez ele já esteja indo embora junto com os outros doutores vermelhos. Chegou a hora de cortar a parte podre do Brasil. O senhor seria mais patriota se largasse os livros e publicasse uma lista dos professores que dividem a escola em partidos.

Não contei a ele que Gregório de Matos, padre e poeta, já se foi desta para a melhor há mais de trezentos anos. Também não disse que o verso citado abre um soneto sobre a relação dialética entre a parte e o todo na configuração do mistério eucarístico, modelo de ideal comunidade. Não. Mas contei-lhe um episódio da História, acontecido na China, na década de sessenta. Falei da revolução cultural, quando legiões de estudantes, brandindo o famoso livrinho de Mao Tsé Tung, denunciaram, perseguiram e humilharam professores cujos ensinamentos revisassem algum dogma do mestre, o grande timoneiro. Eu poderia ter escolhido outros episódios de caça às bruxas, como os que aconteceram na Alemanha nazista, na Itália fascista e na América macarthista. Mas eu queria mostrar como um drama histórico da esquerda pode ser revivido agora, como farsa, pela direita.

Na verdade eu agi de má fé. Eu sabia que meu ouvinte era homem de um livro só, que reduziria tudo ao esquema simplista de seu decodificador de mensagens. E minha perversa estratégia deu certo, pois ele ouviu tudo com os olhos arregalados para, depois, matutar:

– Será possível? Será que eu votei… Será que nós elegemos um maoísta?

Joguei gasolina no fogo-fátuo:

– E por que não? As escolas dominadas por professores revisionistas, durante tanto tempo, fazendo lavagem cerebral nos alunos que, hoje, são os eleitores…

Ele se concentrou nesse quebra-cabeças pelo resto da viagem e eu pude, afinal, escrever em paz a minha crônica. Depois passo a lista (dos livros, não a dos professores) pra vocês, amigos da leitura plural, ampla e irrestrita.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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