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O PRÍNCIPE E O FEITICEIRO

Era uma vez um príncipe que acreditava em tudo, menos em três seres: pobres, rebeldes e filósofos. Seu pai dizia que eles não passavam de lendas e, de fato, não havia vestígio de nada disso nos paços e nos jardins da corte real.

Porém (ah, porém!), um dia, como parte dos ritos de passagem que marcavam o fim da infância, o príncipe atravessou a ponte levadiça sobre os famintos crocodilos do fosso que circundava as muralhas: pela primeira vez ele se viu nos domínios periféricos do reino, onde viviam os plebeus.

Pela estrada afora, ao longo de pastagens, plantações e matas, seu caminho foi interrompido por grupos de pessoas com bárbara aparência que, erguendo os punhos fechados, ora cantavam, ora gritavam em coro. Do que diziam, ele percebia algumas estranhas e vagas palavras: não, agrotóxico, basta, monocultura, fora, desmatamento…

Na grande cidade, ele se surpreendeu com o luxo dos centros comerciais, com a magnificência das catedrais, com o esplendor dos teatros, com a imponência dos prédios, com a sofisticação dos restaurantes, com o discreto charme dos burgueses, com a elegância e a beleza das burguesas. Aquele mundo parecia feito à imagem e semelhança da corte. Mas, nas ruas, pessoas sujas e maltrapilhas lhe estendiam as mãos, murmurando outra palavra estranha: esmola. E havia grupos que lembravam aqueles da estrada, ainda que com outros insólitos bordões: trabalho, república, direitos humanos… Então, o príncipe sentou-se num banco de praça, ao lado de um homem de aspecto respeitável, cuja roupa social dispensava paletó e gravata, as mangas da camisa branca dobradas sobre os punhos. Apontando os maltrapilhos de mãos estendidas, o príncipe perguntou:

– Quem são aqueles?

– São os pobres.

– E aqueles outros? – o príncipe, apontou um grupo dos que cantavam e gritavam com os punhos erguidos.

– São os rebeldes.

– E quem é o você? – indagou o atônito príncipe, já pressentindo a resposta.

– Eu sou um filósofo.

De volta à corte, o príncipe procurou o rei.

– Pai, eu vi pobres e rebeldes em nosso reino.

– É mesmo? E como você sabe que eram pobres e rebeldes de verdade?

– Um filósofo me disse.

– Pois bem, então me conte como se vestia esse filósofo – pediu o rei.

– Ele usava roupa social, sem gravata nem paletó, com as mangas da camisa branca dobradas sobre os punhos.

O rei sorriu:

– Esse é o uniforme dos feiticeiros. Com sua magia, esse falso filósofo distorceu a realidade e fez você ver aquilo que não existe nem pode existir em nosso reino.

Quando voltou à cidade, o príncipe procurou na mesma praça o mesmo banco e lá encontrou o mesmo homem que se dizia filósofo.

– Você me enganou, disse o príncipe. Meu pai, o rei, me contou que você é um feiticeiro e que sua magia distorce a realidade, me fazendo crer em quimeras, como pobres, rebeldes e filósofos.

– No reino há pobres, rebeldes e filósofos de carne e osso, respondeu o homem, sorrindo. Só não pode ver isso quem está sob a magia de seu pai que é, na verdade, um feiticeiro.

Pensativamente, o príncipe retornou à corte e, olhando nos olhos do rei, indagou:

– Pai, por que é que não pode haver pobres no reino?

– Porque se todos são filhos de Deus, todos são ricos herdeiros de seu reino.

– Por que não pode haver rebeldes? – insistiu o príncipe.

– Se não há pobres, não há rebeldes.

– E por que não pode haver filósofos? – questionou ainda o príncipe.

– Por que os filósofos comeram o fruto proibido da árvore da razão e foram expulsos do nosso paraíso.

– Pai, continuou o príncipe, é verdade que você é um feiticeiro?

Com um sorriso, o rei tirou o paletó, a gravata, e dobrou as mangas da camisa branca.

– Pai, suspirou o príncipe, quero conhecer a verdade que há além da magia.

– Não existe verdade além da magia, respondeu o rei.

– Não me conformo com uma vida de ilusão, soluçou o jovem. Prefiro a morte.

Nisso, ao estalar dos dedos do rei, materializou-se na sala do trono uma bela mulher, as formas do corpo suntuoso moldadas pela túnica inconsútil, o brilho do olhar intenso e do sorriso alvar reluzindo no puro aço de sua foice.

– Bem, disse o príncipe – com outro suspiro – creio que tenho forças para suportar o peso dessa vida…

Então, o rei o abraçou, dizendo:

– Parabéns, meu filho! Você acaba de completar seu rito de passagem. A partir de agora, você começa a ser também um feiticeiro…

P. S. – Escrevi este conto como paráfrase de uma passagem de “The Magus”, de John Fowles.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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