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OUTRAS INQUISIÇÕES

            A palavra latina para janela é fenestra. Daí vem o verbo defenestrar, que significa “lançar alguém violentamente pela janela”. A defenestração foi uma forma recorrente de assassinato político na cidade de Praga, capital da atual República Tcheca. As primeiras defenestrações aconteceram na Idade Média, na disputa pelo poder entre católicos e protestantes. A última ocorreu em 1948, quando os comunistas jogaram para fora do poder os socialistas.

            O bizarro leitmotiv da defenestração rege uma narrativa de Joseph Kanon, que teria em português o título de “O espião pródigo”: a tragédia de um agente duplo que, no auge da guerra fria, foge da paranoia macarthista para cair na teia da psicose estalinista. Leitura indicada para quem quer ver o real da História através de uma janela que filtra a nudez da verdade com a cortina diáfana da fantasia.

            A janela é também metáfora dos olhos. O olho que tudo vê é a janela pela qual o homem sem alma controla tudo e todos. Essa é a imagem do Big Brother que George Orwell criou no clássico “1984”, para denunciar o totalitarismo soviético e que se atualiza como permanente alerta contra qualquer forma de poder autoritário.

            Janela também significa, diz o Michaelis, “espaço vazio de uma página, de onde foram tirados desenhos, gravuras ou parte de um texto”. Apagar os nomes, as imagens, os registros dos adversários derrotados – esta é uma forma simbólica de defenestração comum às ditaduras. Foi assim que o estado estalinista tentou apagar Leon Trotsky da História. Quem se interessar por uma impressionante reconstituição ficcional de seu julgamento baseado em provas forjadas, em depoimentos de testemunhas coagidas, passando pela condenação ao exílio até o assassinato no México, deve ler “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Padura.

            Por aqui também tivemos as nossas defenestrações. As ditaduras do Cone Sul e do Brasil, unidas na Operação Condor nos anos 70, fizeram desaparecer, sem deixar vestígios, centenas de opositores políticos, lançando-os ao mar pelas janelas de aviões militares. Na falta de janela, nos porões do DOI-CODI em S. Paulo, simularam o suicídio por enforcamento do jornalista Vladimir Herzog, pendurado à grade de um basculante que dava para um muro.

Há muitos livros que abrem janelas sobre esses anos de chumbo. Aleatoriamente, indico dois: “K – relato de uma busca”, de Bernardo Kucinski, ficção que narra a história de um pai em busca da filha que desapareceu, como tantos outros, durante a ditadura no Brasil; e “Dossiê Herzog”, não ficção de Fernando Jordão.   Quem sabe essas janelas abrirão nossos olhos, antes que sejamos surpreendidos por uma nova temporada de defenestrações.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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