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UM POEMA DE BLAKE

Temo o homem que só conhece um livro, disse Tomás de Aquino, o grande teólogo medieval. O homem de um livro só é aquele cuja visão de mundo é esquemática e seu esquema é a antítese. Para ele, a existência se reduziria a um dualismo radical entre pólos irreconciliáveis: luz contra trevas, bem versus mal, alma em oposição a corpo, fiel contra infiel, hetero versus homo, etc. Essa visão de mundo tem um nome antigo: maniqueísmo. Sistematizado no século III pelo religioso Maniqueu, que dizia ter recebido uma revelação dos anjos, o pensamento maniqueísta é o objeto do temor de Tomás de Aquino. Como pode o homem de um só livro fazer a leitura do complexo texto da existência? Esse desafio requer um leitor enciclopédico, capaz de substituir a imobilidade da antítese pela dinâmica do paradoxo: neste, os opostos não estão fatalmente separados, mas interagem na constituição do ser que, movido por suas contradições, está sempre em devir.

Mas para que os anjos não levem a culpa pelo maniqueísmo, precisamos nos lembrar de William Blake (Inglaterra, século XVIII), homem de múltiplas leituras, artista eclético e que também dizia ter visões angelicais. Para esse místico, as injustiças sociais e a pobreza não eram obras do demônio, mas eram consequências do sistema econômico e das decisões dos governantes; para o poeta cabe ao homem superar as próprias contradições, através de novas sínteses. Antecipando-se a Bachelard, Blake compreendeu que o real é ambíguo e que, por isso, não é irreconciliável com o sonho. No poema “The clod and the pebble”, a figura do Amor lembra menos Cupido que Janus, o deus de duas faces – metáfora do real em diferentes versões: a visão otimista do frágil torrão, o olhar pessimista da dura pedra. Ao apresentar essas versões, sem juízo de valor, o poeta supera o impasse através da arte: a síntese que recria o real em dimensão estética. Compartilho aqui a tradução que fiz desse poema.

O TORRÃO E A PEDRA

“Amor não busca o próprio gozo,

E nem se cuida com esmero,

Mas dá a outros seu conforto

E cria céus dentro do inferno.”

Assim algum torrão de terra

Cantava, sob pés, na estrada;

Mas, beira-rio, uma pedra

Responde-lhe com essa quadra:

“Amor só busca o próprio gosto

E torna o outro escravo seu,

Goza no alheio desconforto,

E faz um inferno no céu.”

Por: Afonso Guerra-Baião, professor e escritor. Publicou as narrativas O INIMIGO DO POVO e A NOITE DO MEU BEM pela Amazon. Tem textos publicados em revistas literárias como o Suplemento Literário de Minas Gerais. Colabora em jornais e em sites como Curvelo online. Publica também em sua página no Face e em seu blog no You Tube.
Acaba de publicar SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, um livro que explora duas vertentes da poética clássica: a lírica, que provoca a emoção e a reflexão, e a satírica, que libera o riso e a catarse.
Afonso é torcedor do Galo.

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