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VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA

O título dessa crônica é o de um conto de Aníbal Machado, que li quando cursava o ensino fundamental em Ponte Nova. O enredo é a história de um funcionário público que, ao se aposentar, deixa a Capital Federal (então, o Rio de Janeiro) e volta ao interior de Minas, movido pela indelével imagem de sua primeira namorada. Gostei tanto do conto que, algum tempo depois, já em Belo Horizonte, fui assistir, em um cineclube, à exibição do filme homônimo de Carlos Hugo Christensen, com Rodolfo Mayer e Nathália Timberg.

Foi naquele conto que me deparei pela primeira vez com o topônimo Curvelo: “Ao entardecer, apitava uma fábrica de tecidos e uma vitrola esganiçava a todo pano, quando a “jardineira” encostou à porta do hotel principal de uma cidade. Era Curvelo, boca do sertão mineiro.”

Eu não entendia bem por que as pessoas mais velhas diziam que o vasto mundo era pequeno. Pois foi esse truísmo que me aflorou como um insight, juntamente com esse trecho do conto, quando, anos mais tarde, desci do ônibus em frente ao Hotel Bandeirantes, em cujo estacionamento funcionava a “rodoviária”. Com uma mala de roupas e alguns pacotes de livros, eu vinha assumir meu cargo de professor no Premen, numa cidade que escolhi por ser próxima de Belo Horizonte e de Diamantina.

Mas foi outro o hotel em que me hospedei e onde residi durante um ano, assim como os colegas também vindos de fora: o Hotel Rio de Janeiro, com a bela fachada ainda preservada e que tinha servido de locação para o filme de Christensen, na cena em que o protagonista passa por Curvelo, rumo a sua cidadezinha natal.

Outro dia, pude rever esse filme, no canal Cine Brasil TV, o que me motivou a reler o conto de Aníbal Machado. Revisitar o filme e o conto foi o que me propiciou essa viagem até onde a ficção e o real se encontram no infinito da dimensão estética.

Mas minha viagem não terminou aí. Depois de abduzido pela ficção, às vezes é difícil a readaptação à atmosfera pesada da realidade. Dessa vez, porém, entre as notícias da política, as contas a pagar e a lista dos deveres e dos compromissos, havia uma mensagem de um amigo que voltava do mesmo passeio. A mensagem dizia assim:

A primeira partida oficial do Clube Atlético Mineiro, em março de 1909, exatamente um ano após a fundação, foi contra o Sport Club Futebol: vitória por 3 x 0. O autor do primeiro gol viria a descobrir que sua sina era realmente de ser “autor”: o primeiro gol da história do Galo foi de Pingo, apelido de Aníbal Machado, que se tornaria escritor e dramaturgo, responsável por alguns dos melhores contos da literatura brasileira, entre os quais “Viagem aos Seios de Duília”. Aquém de Deus e além da arte, só o Galo salva!

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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