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VITORIANOS ATACAM OUTRA VEZ

A ficção científica, tanto na literatura quanto no cinema, costuma figurar o futuro do planeta e da civilização em quadros escatológicos: nas cidades devastadas, os escombros da tecnologia convivem com uma natureza alterada e revolta, enquanto as ruínas da cultura vão sendo assimiladas ao caos e à barbárie.

Poderia fazer aqui um catálogo de autores e títulos. Por economia e objetividade, vou citar apenas um: A GUERRA CONTRA OS VITORIANOS, A. D. 2000, conto do inglês Brian Aldiss. Esse título me serve, aqui e agora, por causa do paradoxo que junta, num mesmo campo, unidades de sentido tão distantes e que me pareciam, até aqui, incompatíveis: vitorianos e ano dois mil.

Como nos conta o dicionário Houaiss, o adjetivo vitoriano é relativo à rainha Vitória da Inglaterra, ou à época do seu reinado (1837 a 1901) e indica o que é típico dos padrões, gostos, atitudes morais e comportamentais dessa época, em que se destacam o puritanismo e a intolerância. Para ilustrar com uma só imagem: na época vitoriana as roupas masculinas e as femininas não podiam ser penduradas no mesmo varal ou guardadas no mesmo armário, bem como os livros escritos por homens e os livros escritos por mulheres deveriam ocupar prateleiras diferentes nas estantes, para não caracterizar uma forma, ainda que simbólica, de promiscuidade.

No conto de Brian Aldiss os anos dois mil são o futuro em que emergem, vindos do passado, os vitorianos, na forma de uma sociedade secreta que busca resgatar valores retrógrados e difundir conceitos reacionários.

Para nós que vivemos no século vinte e um, custa crer que figuras do passado e formas obscurantistas se atualizem no quadro real da modernidade.  E não se trata mais de alguma sociedade secreta: a nau dos insensatos que, vinda do passado, aporta ostensivamente em nossos dias, traz navegantes que não podemos chamar de vitorianos, mas de pré-aristotélicos. Estou falando daqueles que, hoje, afirmam que a Terra é plana. O conto de Brian Aldiss está ultrapassado, a realidade supera a ficção. Leio com espanto a notícia: uma sociedade internacional de terraplanistas vende passagens para um cruzeiro que irá até o fim do mundo, até um muro de gelo destinado a conter os oceanos e nos proteger do que possa haver além dele. Espertamente os organizadores da aventura não garantem chegar ao muro, mas asseguram que os viajantes encontrarão, no percurso, evidências da quadratura da Terra, além de desfrutarem dos ótimos restaurantes de bordo e das piscinas com ondas aptas para a prática do surfe.

Comento a notícia com um amigo e ele me diz: “Não duvide. Eles vão encontrar o muro do fim do mundo: o histérico vê aquilo que quer ver”.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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