Home / COLUNAS / Afonso Guerra-Baião / ÁRVORE DA VIDA
SIGA NO INSTAGRAM

ÁRVORE DA VIDA

Esses dias fiz o caminho da roça, um trecho de estrada vicinal, aquela estradinha estreita, de terra batida, bem no meio do cerrado. Bem no meio da poeira e da palha em que se transformou a vegetação, bem no coração da seca, como se fosse na fronteira do deserto e nas vésperas de todos os incêndios.  Paisagem em sépia, natureza morta, mato mirrado, amarelado, sob o sol abrasador. Tudo seco, tudo morto? Não. O cerrado produzia ali o seu milagre. No meio do cenário desolador, se destacava o viço das copas dos pequizeiros. O verde vivo das folhas refletia a luz intensa do dia, mas havia um outro brilho, como se a copa dos pequizeiros usasse uma grinalda de prata ou uma tiara incrustada de preciosos cristais translúcidos: era a floração, as flores brancas como pedras diamantinas no diadema das folhas verdes. O verde espargindo esperança sobre a árida estiagem, o branco espalhando graça sobre o estiolado agreste. Espargindo bênção, espalhando paz, desde as grimpas das rotundas copas até as costelas expostas do chão, os pequizeiros teciam no solo, cá em baixo, um delicado tapete de flores. De repente, no meio do cerrado amortecido, a gente estava no meio do mistério, o mistério de um corpo divino que, morto, é a semente da ressurreição.

Nesse momento eu me lembrei de uma frase que Evandro Guimarães de Paula ouviu de seu pai: “Uma terra que dá o pequizeiro, não pode ser terra ruim”. E me lembrei do soneto que, por provocação do mesmo Evandro, fiz ao pequizeiro e que é uma das bendições do meu livro SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER. Aqui está ele:

ÁRVORE DA VIDA

Um anjo torto disse ao pequizeiro,

drummondianamente: – Vai ser gauche

na vida – no viver que, sertanejo,

seria um paraíso,  se não fosse

o viver perigoso encerrado

neste sem fim de mundo, na matéria

vertente, no devir, no misturado

ser tão contrário a si… Vai ser a vera

metáfora da nossa condição:

fruto bendito em mal dita loa,

do áspero agreste à refeição,

do espinhoso inferno ao céu da boca,

do chão à travessa – travessia

da vida à morte e da morte à vida.

Meu livro SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER pode ser encomendado pela Estante Virtual, pela Amazon, ou direto comigo pelo Face e pelo Instagram. Em Curvelo pode ser adquirido na Livraria Sto. Antônio. Em Diamantina se encontra na Livraria Espaço B.

Afonso Guerra-Baião, professor e escritor. Publicou as narrativas O INIMIGO DO POVO e A NOITE DO MEU BEM pela Amazon. Tem textos publicados em revistas literárias como o Suplemento Literário de Minas Gerais. Colabora em jornais e em sites como Curvelo online. Publica também em sua página no Face e em seu blog no You Tube.
Acaba de publicar SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, um livro que explora duas vertentes da poética clássica: a lírica, que provoca a emoção e a reflexão, e a satírica, que libera o riso e a catarse.
Afonso é torcedor do Galo.

Veja Também

AONDE VAI O AMOR QUE NÓS PERDEMOS?

AONDE VAI O AMOR QUE NÓS PERDEMOS? “Aonde vai o amor que nós perdemos?” Este ...