O poeta Cláudio Manuel da Costa nasceu em Mariana no século XVIII. Os versos com que, ironicamente, denuncia o “progresso”, em nome do qual a mineração do ouro desfigurava a natureza em sua época, ganham atualidade com a devastação causada pela extração do minério em nossos dias:
“Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado? (…)
Uma fonte aqui houve, eu não esqueço (…)
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu não me engano: a região esta não era”.

Por não se conformar com a política voraz da corte portuguesa, que destruía o meio ambiente e atrofiava a economia da colônia, Cláudio se tornou inconfidente. Os inconfidentes se inspiravam no Iluminismo francês. Mas nem tudo era Ilustração. Conceitos caros aos iluministas, como Razão, Ciência e Progresso, serviram de álibi para a opressão e a repressão exercidas pelos déspotas esclarecidos, dos quais foram vítimas todas as colônias e seus inconfidentes.
Michel Foucault, pensador francês do século XX, dedicou seu trabalho a criticar esse desvio perverso da razão iluminista. Ele sonhava com um mundo esclarecido, em que o progresso só exista em função do bem-estar de todos, sem custos sociais e ecológicos; em que o respeito às pessoas e à natureza balizem as práticas sociais e políticas. Essa utopia pós-moderna parece cada vez mais distante. Em 2015 assistimos à contaminação do Rio Doce e de toda sua bacia, à destruição de fauna e flora, à morte de centenas de pessoas. Então dissemos: nunca mais! Três anos depois, a tragédia anunciada (pois não foi por falta de aviso) se repete. Desta vez, o “vasto campo da ambição”, de que falava Cláudio Manuel, despeja o excedente de seus podres e criminosos poderes sobre Brumadinho e o Rio Paraopeba. Quem vai acreditar, se nós apenas dissermos “nunca mais”, outra vez?
(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.
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