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O HOMEM DO PAU DE SELFIE

O homem do pau de selfie é grávido de si mesmo e se sentirá justificado se alguém disser que ele tem o rei na barriga, embora se declare republicano. Seu alter ego, o pequeno príncipe, bendito fruto de seu amor hermafrodita, já tem nome: Narciso, aquele que se apaixonou pelo reflexo da própria imagem, como conta o mito grego. Não fora Temer, o padrinho, o nome escolhido seria Eufrásio ou Eusébio: quem lhe dera ter o golpe de vista do compadre para tais mitologices e quimeras.

O homem do pau de selfie compra livros a metro, encadernados, com títulos dourados nas lombadas, para decorar e dar status. Se tivesse tempo para leitura, leria um único livro: “Eu”, de Augusto dos Anjos. E já tem um título, roubado de Fernando Pessoa, para o livro que gostaria de escrever: “Autopsicografia”.

Sempre cheio de si, ele quer mudar o próprio nome, quando encontrar algum que faça jus ao seu egocentrismo. Se ele fosse um leitor, Guimarães Rosa poderia lhe emprestar o de um personagem: Moimeichego, que traz o pronome EU em quatro idiomas: moi (francês), me (inglês), ich (alemão), ego (latim). Se tivesse prestado atenção nas aulas de História, teria se lembrado do Conde D´Eu – nome que, decerto, ele ia rejeitar, por seus preconceitos homofóbicos. A Bíblia, a velha e boa Bíblia, é que lhe ofereceria o nome perfeito: Onan – aquele mesmo, o glorioso descobridor do onanismo, o pai do prazer solitário. Mas… vocês já sabem: ele não lê. Estão vendo só? Bora ler, gente, esta crônica, Rosa, Pessoa, Bíblia, sem esquecer o dicionário!

Fora Temer et caterva, o homem do pau de selfie, é o único cidadão a favor da reforma da Previdência. Isso porque ele é contra tudo o que é coletivo e a favor de toda e qualquer privatização, defensor da previdência privada, como prega seu ídolo Donald Trump. No entanto ele vira bicho se alguém o chamar de direitista. Nem esquerda nem direita, diz ele, eu sou um homem de centro. Ele não deixa de ter razão: afinal onde fica o umbigo, senão no centro do corpo – e o homem do pau de selfie, como bom onfalópsico, acredita que, na contemplação do próprio umbigo, vai ter a revelação da luz do Tabor.

Não vamos perder mais tempo com ele. Vamos deixá-lo aqui, consigo mesmo, cantarolando “eu me amo, eu me amo, não posso viver sem mim”, no bloco do eu sozinho. Mas antes que eu bote o ponto final, alguém me alerta: tire o lance da Previdência, e ele pode acabar descobrindo que seu nome é legião.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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