Ora bolhas!

Temo o homem que só conhece um livro, disse Tomás de Aquino, o grande teólogo medieval. O homem de um livro só é aquele cuja visão de mundo é esquemática e seu esquema é a antítese. Para ele, a existência se reduziria a um dualismo radical entre pólos irreconciliáveis: luz contra trevas, bem versus mal, e ainda direita/esquerda, alma/corpo, fiel/infiel, hetero/homo, etc. Essa visão de mundo tem um nome antigo: maniqueísmo. Sistematizado no século III pelo religioso Maniqueu, que dizia ter recebido uma revelação dos anjos, o pensamento maniqueísta é o objeto do temor de Tomás de Aquino. Como pode o homem de um só livro fazer a leitura do complexo texto da existência? Esse desafio requer um leitor capaz de substituir a imobilidade da antítese pela dinâmica do paradoxo: neste, os opostos não estão fatalmente separados, mas interagem na constituição do ser que, movido por suas contradições, está sempre em devir.

— Vamos trocar isso em miúdos? – propõe o cadarço da camiseta retrô do Galo, interrompendo meu verborrágico fluxo mental.

— Não tenho troco, respondo, mal-humorado.

— Pois acho que você está querendo dar o troco naquele cara que te chamou de esquerdopata.

Danado, esse cadarço! Tocou direto na ferida! Numa discussão em rede social, eu apoiava as críticas ao governo Temer, feitas por Raduan Nassar na entrega do Prêmio Camões, quando recebi esse direto de direita. Na hora, meio atordoado, não consegui dizer mais que aquele personagem de Jô Soares: Ah, é? Ah, é? Só agora despejo pra cima do cadarço da camisa retrô meu ensaio de revide.

— Vai pra cima dele! – provoca o cadarço doido. Chama ele de direitopata!

Não devo entrar nessa pilha. Prefiro pedir ajuda a Tomás de Aquino para discutir com o homem de um livro só, aquele que reduz a diferença política a patologia. E, já que a que a bola do páthos foi levantada, recorro também aos neurolinguistas John Grinder e Richard Bandler para me ajudar a rebatê-la. Anular o ponto de visa do outro, enxergar o mundo por uma única premissa, é uma atitude neurótica: “Neurose é acreditar que só existe um único caminho, uma única opção”.

— Posta isso lá e acaba com ele! – grita o cadarço.

As redes sociais, muitas vezes, são bolhas consensuais habitadas por haters, que reagem violentamente a qualquer contraditório. Nesse caso, essas bolhas serviriam de ilustração para a famosa frase de Jerome Lawrence, que me ajuda a encerrar esta crônica: “O neurótico constrói um castelo no ar. O psicótico mora nele. O psiquiatra cobra o aluguel”.

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