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PROCURA DA POESIA

No prefácio do meu livro, SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, o Professor Antônio Sérgio Bueno afirma que “a ficção vem até nós, a poesia nós temos que buscá-la”.

A ficção, a história inventada vem até nós. Nos dias atuais, a realidade parece copiar a ficção. Essa ficção não vem até nós através dos romances, dos contos, das novelas ou das séries. Ela vem até nós através do noticiário, dos meios de comunicação de massa ou das redes sociais. E as narrativas da vida real que as mídias nos aportam são tão absurdas que fazem parecer histórias infantis as obras de um Kafka, de um Orwell ou de um Garcia Marquez.

Pois bem. Em momentos assim, mais do nunca, a poesia se faz necessária. E poesia não vem até nós: nós temos que buscá-la.

Onde buscar a poesia?

Ainda muito jovem, eu fui buscá-la no ensinamento que um grande mestre, Carlos Drummond de Andrade, me oferecia em seu poema PROCURA DA POESIA. Como todo jovem, eu tinha a sensibilidade â flor da pele e transpirava emoção por todos os poros. Qual não foi, então, o meu espanto, a minha perplexidade, diante da seguinte afirmação do poeta: “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”. Com o tempo eu viria a entender que a poesia não é a realidade imediata, mas é a realidade transfigurada, mediada pela linguagem em dimensão estética.

Como buscar a poesia?

Em PROCURA DA POESIA, o poeta ensina: “Penetra surdamente no reino das palavras”. Surdamente: sem dar ouvido aos clichês, aos estereótipos das falas repetidas que nos assediam, fechando os ouvidos aos lugares comuns e aos preconceitos que nos bombardeiam cotidianamente. Mais ou menos como os místicos que esvaziam a mente para meditar. Só assim podemos experimentar o que Gabriela Llansol chamou de “o encontro inesperado do diverso”. É como se você estivesse andando por um campo e topasse com pedras há muito esquecidas nas trilhas ou no meio da vegetação. Você levanta uma pedra e descobre debaixo dela a efervescência de um bioma, a vida que anima um insuspeito microcosmo. Da mesma forma, as palavras nos surpreendem quando, ao penetrarmos no jogo da linguagem, descobrimos uma nuvem inteira de sentido condensada numa gotinha de gramática, para lembrar o dizer de Wittgenstein.

O todo condensado em cada parte, a parte que já contém o todo – este é o graal, objeto de desejo de quem procura a poesia, que só existe quando o construímos, e sempre precisa ser reinventado. Nessa busca, depois de muito caminhar, cheguei aos poemas que formam o livro SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER. Esta é a forma com que, nesse momento, eu levanto uma pedra no quintal do LOGOS, a linguagem que é a casa do ser.

Agradeço à Academia Curvelana de Letras e à OAB/CURVELO pela bela festa de lançamento, bem como à Livraria Santo Antônio, onde o curvelano pode adquirir o livro, que também pode ser pedido pela Estante Virtual ou por minha página no Face.

Afonso Guerra-Baião, professor e escritor. Publicou as narrativas O INIMIGO DO POVO e A NOITE DO MEU BEM pela Amazon. Tem textos publicados em revistas literárias como o Suplemento Literário de Minas Gerais. Colabora em jornais e em sites como Curvelo online. Publica também em sua página no Face e em seu blog no You Tube.
Acaba de publicar SONETOS DE BEM-DIZER / DE MALDIZER, um livro que explora duas vertentes da poética clássica: a lírica, que provoca a emoção e a reflexão, e a satírica, que libera o riso e a catarse.
Afonso é torcedor do Galo.

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