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REVELAÇÃO DO PÁSSARO

            Mal começa o inverno, a criança me pergunta:

            – Quantas andorinhas fazem o verão?

            – Não sei. Mas Tio Borges me contou, numa história, com quantos passarinhos se faz o Rei dos Pássaros.

            Já no berço, a criança pede:

            – Me conta a história do Rei dos Pássaros.

            Essa é uma história de outros tempos, escrita por um poeta que viveu na Pérsia. Seu nome era Attar.

            – Então conta.

            Reconto e acrescento um ponto.

            O Rei dos Pássaros se chamava Simurgh. Ele deixou cair uma de suas penas bem sobre o coração da Pérsia. Então os passarinhos resolvem abandonar a prisão de suas rotinas (nesse tempo não havia mais gaiolas) e buscar o supremo esplendor de que aquela pena era só uma amostra. E eles se lançam numa aventura talvez infinita. Sabem apenas que o ninho do seu rei fica na Árvore Cósmica; sabem apenas que essa árvore fica no átrio de uma fortaleza sobre a montanha que tem a forma de um círculo em volta da terra;  e sabem que o nome de seu rei significa “todos os pássaros o pássaro”.

Alguns não partem: o papagaio, por exemplo, explica que não pode deixar os discípulos humanos sem suas lições de linguagem; o tucano diz não acreditar em utopias e prefere ficar pousado na solidez de um muro; outros arrepiam as penas e torcem o bico, à simples ideia de se misturar com a baixa ralé.

Mas a massa se levanta, em audaz navegação: as aves voam sobre inacessíveis montanhas, cruzam sete mares, sobrevoam incontáveis vales. Muitos desses peregrinos se perdem, outros morrem no caminho. Apenas trinta pássaros passam pelo precipício extremo, sobrevoam o derradeiro abismo e pousam, finalmente, na última das montanhas. Então, a visão do Simurgh já estava desenhada em seus olhos. Iluminados pelo fulgor da travessia, eles compreendem que o Rei dos Pássaros é formado pelo conjunto de todos os passarinhos; que sua plumagem é tecida pelas penas de cada ave; que seu canto é a harmonia dos pios de cada um; que seu voo é o movimento de todos e de tudo.

            – Tudo… heee… hummm… – boceja a criança, já derivando para o reino dos sonhos.

(Afonso Guerra-Baião)
É professor e escritor. Escreve poemas, contos e crônicas, além de estar às voltas com a construção de um romance. Traduz poemas do francês e do inglês. Colabora em jornais e blogs. Mora em Curvelo-MG e é torcedor do Galo.

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